Professor Ventura em: A Tuba Eletrônica - Parte 6

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- Então é isso! Realmente, pude perceber que existe uma diferença entre o som real e o artificial, mas se me perguntarem por que, não sei dizer! Talvez, o professor Ventura, como especialista é que pode explicar.

O professor confessou então que tinha uma teoria:

- A origem da diferença talvez esteja no próprio modo como os sons de instrumentos musicais são reproduzidos, ou sintetizados por equipamentos eletrônicos. Imaginem a gravação do som de uma tuba! Como vocês acham que ela deva ser feita para ser perfeita? - perguntou o professor, olhando para Beto. O rapaz pensou um pouco e respondeu:

- Naturalmente colocando-se um microfone diante da tuba, e esse microfone deve ter a maior fidelidade possível, ou seja, deve fornecer na sua saída um sinal cuja forma de onda corresponda exatamente ao som que ele capta da tuba!

- Certo! - concordou o professor.- E, a reprodução, para ser perfeita, como deve ser feita?

Mais uma vez Beto respondeu com precisão:

- Deve usar um amplificador fiel e uma caixa acústica que produza sons com as mesmas formas de onda captadas pelo microfone, ou seja, que correspondem à tuba!

O professor, levantou o dedo como que negando tudo e aí fez uma afirmação surpreendente:

- Aí que está a diferença! O som que o microfone "capta", ao gravar uma tuba não é exatamente o som que sai da tuba, mas sim o som que chega ao microfone! Nesse trajeto, muita coisa pode acontecer. Por exemplo, a própria geometria da tuba pode contribuir para alterações. As bordas de metal do instrumento difratam o som, pois são ondas, e as diferentes frequências têm padräes de irradiação diferentes!

- É mesmo! O som captado pelo microfone, ou mesmo por muitos microfones, corresponde a uma situação local e não ao padrão ambiente. Trata-se de um "ouvido" colocado no local.  - concordou Beto.

O professor continuou:

- Exatamente! Desta forma, o "padrão" que se grava como de uma tuba não é o padrão "espacial", mas sim o que chega alterado ao microfone. Isso quer dizer que, na reprodução, por mais perfeita que ela seja, não temos o sinal que corresponde ao som que sai da tuba, mas sim o que chega ao microfone, e isso tem diferenças!

- Puxa! Começo a entender! - disse Cleto, agora mais consciente de seu engano de avaliação.
- E tem mais! As caixas que vão reproduzir o som, mesmo que recebam uma forma de onda que correspondam ao instrumento real, não têm o mesmo padrão de diretividade desse instrumento: os sons não são irradiados como seriam se saíssem de uma tuba, mas sim de uma caixa, e aí temos novas diferenças.

- Isso sem se falar que esse som que chega ao alto-falante é o sinal já alterado captado pelo microfone! - completou Beto.

Cleto concluiu então de maneira precisa o que ocorria:

- Começo a entender! O som "artificial" não corresponde ao que sai do instrumento, mas sim ao que chega ao microfone! E o microfone é um padrão pontual. Para a reprodução ser real, ela teria de retratar um padrão espacial, de modo que nos alto-falantes todas as frequências audíveis e inaudíveis se espalhassem segundo um padrão espacial, semelhante ao da tuba!

- Isso mostra a complexidade de reprodução necessária à obtenção do som real! - completou o professor Ventura - Acho que ainda ser  preciso muito avanço técnico para que os sistemas de som cheguem a esse ponto!

- E eu que pensava que já tínhamos o máximo! - Beto estava espantado com o que ele julgava ser o máximo em reprodução.

Epaminondas, orgulhoso por ter demonstrado a "superioridade" do som de sua tuba "natural" em relação ao artificial, mesmo sem ter entendido muito as explicações técnicas do Professor Ventura, e ainda aliviado por saber que não existia realmente nenhum concorrente para tentar lhe tirar o lugar na banda, resolveu voltar mais cedo para casa e dar as "boas novas" para dona Pafúncia. Não telefonaria: queria fazer isso pessoalmente!

Fechando a barbearia, lá foi o músico com tuba debaixo do braço, rumo a sua casa, assobiando mais uma marcha muito conhecida de Sousa.

Ía passando diante do velho galpão, ao lado da clínica veterinária do Doutor Gadolino, quando um som diferente, na verdade muito estranho, lhe chamou a atenção:

- Múúúóóóoohhhhcc!...

Epaminondas estancou, pois nunca tinha ouvido algo semelhante na vida, e imediatamente pensou:

" - Natural ou artificial? Deve ser mais um teste do professor Ventura!"

Esperou mais um pouco e ouviu novamente:

- Múúúúóóóhhhccc!...

- Ah ! É artificial, esse eu conheço! - e indo diretamente para a porta do galpão Epaminondas a abriu, esperando encontrar mais um "belo sistema eletrônico de reprodução de sons", obra do "maluco" do Professor Ventura, mas o que viu não foi nada disso! O som era "natural" e produzido pela bravíssima Vaca Beneplácita, famosa na cidade toda, e que estava esperando o momento de ser examinada pelo veterinário em virtude de uma estranha rouquidão, talvez causada por alguma inflamação de garganta! O animal, com a abertura da porta foi ofuscado pelo reflexo da tuba, e isso foi o bastante para enfurecê-lo. Diante do olhar ameaçador da vaca, só houve tempo para uma reação de Epaminondas: foi a vez músico produzir seu som, que não podia ser mais natural:

- Uaaaiiiiii!

E, saindo em disparada, com o bravíssimo animal a persegui-lo, correu o quilômetro e meio até sua casa em tempo recorde!

O professor Ventura, ao saber do ocorrido só pode comentar de maneira descontraída:

- Um ouvido tão treinado, enganado por uma vaca afônica!

Beto e Cleto riram.

__________ FIM _________ Texto publicado em 1994

Obs: esta estória saiu publicada no livro Som, Amplificadores & CIA  - Newton C. Braga - 1994. A ilustração também é a original antiga, se bem que o Prof. Ventura tenha sofrido uma transformação com  o tempo.

 

 


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