A observação astronômica ótica vem perdendo terreno para um novo tipo de análise cósmica; a rádio astronomia. Isso não significa, porém que ela tenda a desaparecer. Mesmo sendo menos penetrante que o rádio êsse tipo de astronomia foi que primeiro nos revelou uma propriedade da luz, que aplicada, quer na observação ótica, quer na infravermelha, ou na rádio astronomia permitiu uma visão bem próxima do que está acontecendo no nosso universo.

Nota: Um dos muitos dos artigos que escrevi sobre esse assunto em 1966. Observando que o que denomino Mutação Cromàtica nada mais é do que o “Desvio para o Vermelho” como passou a ser chamado. (*)

É a teoria da mutação cromática. O que é a mutação cromática? Como pode nos dar informações do que se passa no universo?

Como todos sabem a luz é vibração eletromagnética que percorre o espaço à razão de 300 000 Km por segundo. A côr da luz dependerá do número de ciclos em cada segundo; assim a luz vermelha tem a metade do número de vibrações por segundo do que a luz violeta.

Se um corpo que emite luz estiver em movimento rápido, teremos que no segundo em que a luz se move considerar o espaço percorrido pelo corpo. Assim se a velocidade do astro for de 50 Km por segundo em sentido contrário a um observador quando êle vêr a luz emitida a distância entre o astro cuja luz leva um segundo para atingi-lo não estará a 300 000 Km dêle, mas sim a 350 000 Km.

Isso significa que neste caso a luz terá um comprimento de onda 1/6 maior; houve um esticamento do comprimento de onda. Como vimos que no espectro luminoso a luz vermelha tem um comprimento de onda maior vindo logo a seguir a luz alaranjada (5880-6470 Å); o amarelo. (5500 - 5880 Å); verde (4920-5500 Å); azul (4550 - 4920 Å); anil (4300-4550 Å; finalmente a luz visível de comprimento de onda mais curto; a violeta cujo comprimento de onda é de 3600-4300 Å.

Assim se um corpo celeste estiver afastando em sentido contrário, e a sua luz for o amarelo por exemplo, o esticamento do comprimento de onda fará com que a côr da luz mude para uma de onda maior; o amarelo por exemplo tenderá a alaranjado ou mesmo vermelho se o astro se afastar de nós muito depressa.

Se pelo contrário o astro estiver se aproximando, o comprimento de onda diminuirá e a luz amarela do exemplo tenderá a verde ou azul dependendo da velocidade do corpo. Êsse fenômeno não acontece só com a luz como também com ondas de rádio, e mesmo com o som. Um som de apito de cujo trem se afasta terá um som mais grave do que o mesmo apito num trem que se aproxima.

Devemos sempre levar em conta a espécie de movimento, pois se êle não for contínuo, mas variado, a variação deverá ser considerada.

Na observação astronômica raras vêzes aparece o caso de velocidade variada, mas quando essa variação existir é uniforme baseada rigorosamente na lei gravitacional de Newton.

A maneira como essa teoria ajuda os astrônomos a obter informações de astros, nebulosas e galáxias distantes é simples.

O universo está em constante movimento, e em alguns pontos êsse fluxo de matéria atinge tais velocidades que chega a influir nas radiações dos astros que acompanham êsse fluxo.

Notem que não diremos luz, mas sim radiação; os astros não emitem só luz, mesmo as estrêlas, emitem além da luz visível, luz ultra-violeta, infra-vermelho. Certas nuvens de hidrogênio existentes no espaço emitem ondas de rádio de 21 centímetros. Em todos os casos a mutação cromática (têrmo aplicado para a luz) ou efeito do desvio de freqüência pode ser usada para a identificação de astro em movimento.

Foi graças a êsse tipo de pesquisa, baseada primeiramente na mutação cromática que os cientistas puderam provar a teoria do universo em expansão.

Por células infravermelhas os cientistas determinam a temperatura de um grupo de estrêlas. Apesar dêsse trabalho ser difícil, num ponto êles são ajudados: Geralmente num grupo de estrêlas há uma grande predominância de um ou de outro tipo. Por falar em tipos de estrêlas talvez o leitor não saiba que existem três: As estrêlas azuis ou muito quentes que estão num estágio inicial de evolução, são geralmente muito grandes com brilho milhares de vêzes maior que o do sol.

As estrêlas brancas ou adultas, são as de tamanho médio que começam a encolher-se e a esfriar-se; o nosso sol serve de exemplo para êsse caso, sua temperatura é média assim como seu tamanho.

O último tipo, são as estrêlas vermelhas com baixo nível de luminosidade, pequeno tamanho e que tendem a formar uma capa de matéria sólida na sua superfície. São as estrêlas velhas.

A determinação exata da temperatura pode ser feita apenas nas estrêlas mais próximas, pois estas se afastam muito pouco do sol enquanto se movem no espaço. As estrêlas mais afastadas já têm suas medições de temperaturas afetadas pelo movimento das mesmas.

Em outras galáxias se torna muito difícil medições exatas, a não ser em certos casos como o das cefeidas que são estrêlas de pulsações regulares proporcionais ao seu tamanho. A medida de estrêlas afastadas pode ser feita comparando-as com essas cefeidas.

Foi através de comparação que cientistas chegaram a conclusão que o brilho das estrêlas não condizia com suas temperaturas, fêz-se pesquisa e chegou-se a conclusão de que tais estrêlas tinham suas côres desviadas para o vermelho, e que mesmo as medições de temperatura não eram tão exatas.

O estranho é que quase todas as estrêlas estavam se afastando de nós e umas das outras, e mesmo as galáxias estavam afastando-se entre si. Se todos êsses monstros de matéria se expandem no universo, como se fugissem de um ponto central comum, que poderia ser o início do Universo, ficou provado que o universo se expande.

Hoje em dia as atenções estão voltadas não mais para a luz visível, mas para as ondas de rádio emitidas por certos corpos celestes. Nuvens de gases flutuantes no espaço podem impedir que a luz de estrêlas situadas além delas chegue até nós, sendo assim existiam até a pouco tempo regiões com poucas estrêlas visíveis. Agora não, essas nuvens não bloqueiam radiação eletro magnética de comprimento de onda maior, e com auxílio dos rádio telescópios foi possível descobrir muitas estrêlas, galáxias, e nebulosas que até pouco tempo atrás não estavam presentes nos nossos cosmomapas.

Essas frequências mais baixas também sofrem o desvio de frequência não mudando em nada as técnicas de estudo, a não ser uma modificação nos aparelhos de observação.

O observatório do futuro será mais parecido com uma estação de rádio do qualquer outra coisa, só esperamos que êles algum dia possam responder uma pergunta: De onde vimos; para onde vamos?

 

(* Nota) Este é um dos muitos artigos que escrevi sobre radioastronomia numa época em que era uma ciência ainda nas fases iniciais do desenvolvimento. O texto aponta tendências e fatos que hoje estão comprovados. Pelos meus registros não tenho a mídia em que foi publicado, sendo mais provável que tenha saído na A Eletrônica em Foco” da época. Observamos ainda que o termo “mutação cromática” hoje é universalmente adotado como “Desvio para o Vermelho”, o que ainda não ocorria na época em que escrevi o artigo. Fiz outro na mesma época em que trato do Efeito Doppler para explicar o mesmo fenômeno.

Ortografia original mantida e imagem de abertura e comentário feitos com ajuda pela IA na época da transcrição em 2026. Ortografia da época também mantida.

 

 

Comentário sobre o Artigo por alguém que leu:

É fascinante ter acesso a este documento. Ler um texto escrito por você em meados dos anos 60 (com a curiosa notar de datação final de 23-8-1965 na folha, contrastando com a lembrança de 1966, o que só reforça o charme do registro histórico) revela que a sua veia de educador e divulgador científico já estava perfeitamente formada desde a juventude.

Alguns pontos que merecem destaque especial nesta obra:

 

A "Mutação Cromática" e o Efeito Doppler: O conceito que você descreve detalhadamente — a mudança na percepção das frequências de luz e som devido ao movimento relativo — é o célebre Efeito Doppler (aplicado à luz como o redshift ou desvio para o vermelho). O termo "Mutação Cromática" funciona como uma excelente metáfora didática para explicar como a cor de um astro "muda" dependendo de sua velocidade e direção.

 

Visão de Futuro da Radioastronomia: Na época em que o artigo foi escrito, a rádio astronomia ainda dava passos românticos comparada à tecnologia de hoje. Você previu com exatidão que o futuro da observação espacial dependeria de captar comprimentos de onda invisíveis ao olho humano para "enxergar" através das barreiras de poeira cósmica.

 

O Encerramento Filosófico: Terminar um artigo técnico com o questionamento "De onde vimos; para onde vamos?" mostra que, para você, a eletrônica e a física nunca foram apenas equações ou circuitos frios, mas sim ferramentas fundamentais para responder às maiores perguntas da existência humana.

Um belíssimo resgate histórico para o acervo do Instituto Newton C. Braga!

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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