Numa série de artigos, posts e vídeos contamos a história da eletrônica da forma documentada pelas revistas técnicas de todos os tempos. Tenho uma coleção imensa de revistas técnicas na minha biblioteca, pois foi através dela que meu interesse pela eletrônica surgiu e onde dei meus primeiros passos e depois me profissionalizei cuidando de sua produção.

Desde as primeiras revistas que comprei nos anos 50 e depois até as mais antigas procurando-as em sebos e mesmo adquirindo de colecionadores, passei a vida inteira comprando essas publicações até mesmo quando desapareceram da forma impressa passando a ser disponíveis somente no formato virtual.

Aprendi, criei e ensinei através de revistas desde a primeira série de artigos que publiquei, talvez o primeiro curso de eletrônica numa revista (Eletrônica Popular) nos anos 60 chamado Eletrônica para Juventude e depois o Curso Prático de Eletrônica que existe em derivações até hoje.

Do tempo de Gernsback que foi o pioneiro que criou dezenas de revistas, houve uma evolução extraordinária da eletrônica e obviamente das revistas. Elas acompanharam passo a passo tudo que surgia, tudo que se inventava e criava e assim elas são o documento, talvez mais importante, para levantarmos a história da eletrônica baseados no seu conteúdo.

Organizando minhas revistas ´percebi isso e resolvi justamente fazer uma história da eletrônica a partir do conteúdo das revistas, inicialmente fazendo a história de cada uma das mais importantes revistas do mundo, é claro incluindo as brasileiras, mostrando como era a eletrônica na abordagem de cada uma.

Partimos das primeiras publicações que ainda não eram de eletrônica, mas sim de ciência e eletricidade, pois a eletrônica como a denominamos só passou a ser assim chamada com a chegada das válvulas no início do século XX.

Eram revistas de impressão rudimentar em alguns casos, com páginas em duas cores apenas, e conteúdo precariamente organizado devido às limitações dos serviços de impressão. As capas de duas delas dão uma ideia de como eram.

 

Figura 1 – Revistas do passado
Figura 1 – Revistas do passado

 

 

O conteúdo era interessante, pois falava-se de coisas que podiam ser feitas mas também olhavam para o futuro em alguns artigos. Notava-se claramente a falta ainda de conhecimentos teóricos, pois ainda havia muita coisa por ser descoberta.

 

 

Figura 2 - Revistas de 1900 a 1920
Figura 2 - Revistas de 1900 a 1920

 

 

Raios infravermelhos eram ainda “radiação escura” e a própria natureza dos elétrons ainda era pouco conhecida. Muitas coisas bem conhecidas, mas não explicadas pela ciência.

Na virada do século as revistas evoluíram, principalmente com a chegada das primeiras revistas de Hugo Gernsback, que pode ser considerado o pai das publicações técnicas nos Estados Unidos. Na Europa, o segundo centro da tecnologia na época, muitas revistas surgiram.

 

Figura 3 – Hugo Gernsback
Figura 3 – Hugo Gernsback

 

Mas, os projetos ainda eram caseiros em muitos casos. Entre 1900 e 1930 não havia uma indústria eletrônica que tivesse uma linha de produtos e componentes como hoje que facilitavam a montagem pelos makers.

 

 

Figura 4 – Componentes típicos do início do século passado
Figura 4 – Componentes típicos do início do século passado

 

Os componentes eram artesanais e muitas vezes o próprio montador tinha e de elaborá-los. Foi uma época em que os makers tinha garagens com ferramentas de carpintaria, mecânica, recursos químicos e muito mais para poder elaborar seus projetos.

Pouco a pouco o conceito da bancada de eletrônica foi aparecendo e o grande espaço necessário ás montagens foi sendo reduzido com a bancada que poderia ser colocada em qualquer parte da casa.

Esse fato foi possível pela criação de novos componentes que então passaram a ser vendidos e amplamente anunciados pelas páginas das revistas.

Capacitores e transformadores não eram mais componentes “caseiros” mas podiam ser comprados, assim como resistores, e chegava a válvula que modificou tudo.

 

Figura 5 - Uma bancada de 1935 na capa da revista Radio Craft
Figura 5 - Uma bancada de 1935 na capa da revista Radio Craft

 

 

Artigos com projetos utilizando as válvulas passaram a ser comuns e a tecnologia do rádio ampliava-se tanto com a descrição de projetos relacionados como transmissores, e amplificadores como a própria venda dos equipamentos prontos. A venda de kits surgiu como muitos comprando kits para montar e vender os rádios.

 

Figura 6 – Anúncio de kits da Knight de 1961
Figura 6 – Anúncio de kits da Knight de 1961

 

A chegada da TV que de equipamento experimental descrito em muitas revistas passou a ser totalmente eletrônica no final dos anos 30, se tornou a vedete da eletrônica.

 

Figura 7 – Chega a TV com varredura eletrônica em 1930
Figura 7 – Chega a TV com varredura eletrônica em 1930

 

As revistas em sua maioria empregavam o nome rádio em seus nomes, pois eletrônica era sinônimo de rádio. Foi então que passaram a usar o nome TV e depois perceberam que era tudo uma coisa única passando a usar o nome rádio.

 

Figura 8 – Velhas revistas com TV como tema
Figura 8 – Velhas revistas com TV como tema

 

 

Mas a TV ainda era monocromática e a válvula apesar de sua evolução para amplificar o som com qualidade aparecendo o som estéreo e o FM ainda precisava evoluir. As revistas continuavam a explorar as maravilhas que poderiam aparecer.

Nesses 30 anos a partir da descoberta da válvula a eletrônica passou de curiosidade de laboratório a produto de consumo e as grandes empresas como GE, RCA, Philips invadiram o mercado com seus produtos movimentando bilhões de dólares.

 

Figura 9 – Marcas famosas de TV do passado e seus anúncios
Figura 9 – Marcas famosas de TV do passado e seus anúncios

 

 

As revistas se diversificaram. Das revistas técnicas surgiram as revistas de produtos de consumo, as especializadas em determinados setores desses produtos e muito mais.

A acompanhando as revistas, desde o começo havia os livros que ensinavam determinados assuntos, traziam coletâneas de projetos e também ensinavam a consertar uma indústria que cresceu. Livros de instrumentação eram comuns ensinando a usar o multímetro, osciloscópio, fazer diagnósticos e muito mais.

Nos anos 50 lojas de kits como a Heathkit e Radioshack vendiam produtos para amadores e técnicos indo desde componentes a instrumentação de laboratório. No Brasil tínhamos a LABO.

 

Figura 10  - Lijas de kits e instrumentos do passado
Figura 10 - Lijas de kits e instrumentos do passado

 

 

A chegada do transistor foi um marco importante na segunda transição que podemos situar na evolução da eletrônica.

Figura 11 – O primeiro transistor e seus criadores: Bardeen, Schokley e Brattain (1947)
Figura 11 – O primeiro transistor e seus criadores: Bardeen, Schokley e Brattain (1947) | Clique na imagem para ampliar |

 

 

Os equipamentos eletrônicos até os anos 40 eram pesados, consumiam muita energia e tinham um rendimento relativamente pobre em muitas aplicações.

Equipamentos de comunicação portáteis eram enormes e não pose podia dizer que poderiam ser menores, mesmo com as tentativas de se reduzir o tamanho das válvulas e seu consumo.

 

Figura 12 – Microfone sem fio “portátil” do passado (1936)
Figura 12 – Microfone sem fio “portátil” do passado (1936)

 

 

Surgia então o transistor que modificou tudo, mas não foi uma transição total conforme podemos ver pelas páginas das revistas da época.

Inicialmente saiam artigos usando esse novo componente muito mais como curiosidade do que uma aplicação comercial importante. Tudo isso mudou com a chegada do primeiro rádio transistorizado verdadeiramente portátil.

 

 

Figura 13 – O primeiro rádio transistorizado
Figura 13 – O primeiro rádio transistorizado

 

 

Tinha suas limitações como a necessidade de uma bateria de 22,5 V que durava pouco. Melhorou com a chegada do Regency que usava bateria de 9 V e depois outros que realmente fizeram a transição com o uso de pilhas comuns e excelente desempenho como Spica.

 

Figura 14 – O SPICA.
Figura 14 – O SPICA.

 

 

As revistas técnicas passaram a explorar de maneira muito mais intensa os projetos envolvendo transistores. Os tipos se multiplicaram. De pouco mais de uma centena de tipos, no final dos anos 60 já se aproximavam do milhão para desespero dos técnicos.

Enormes manuais de substituição eram anunciados nas páginas das revistas como recurso indispensável para o trabalho de reparo e mesmo de montagem.

 

Figura 15 – Manual de substituição de transistores
Figura 15 – Manual de substituição de transistores

 

 

O transistor evoluiu rapidamente. Dos primeiros tipos comerciais anunciados que eram frágeis, tinham pouco ganho e baixa potência foram chegando os tipos cada vez melhores.

 

Figura 16 – Milhares de tipos de transistores foram surgindo
Figura 16 – Milhares de tipos de transistores foram surgindo

 

Fazer um projeto de RF com o CK722 nem pensar. No máximo o transmissor de AM de alguns metros de alcance. Eram esses projetos que saiam atraindo as pessoas para a tecnologia. Meus primeiros projetos publicados nos anos 60 usavam esses transistores.

 

Figura 17 – Capa de uma eletrônica Popular e um projeto meu com transistor da época (1967)
Figura 17 – Capa de uma eletrônica Popular e um projeto meu com transistor da época (1967) | Clique na imagem para ampliar |

 

 

Mas, eram curiosos e atraíram as pessoas. Nos anos 70 já era possível obter no comercia transistores que oscilavam na faixa de FM. Nosso microtrasmissor de FM, acompanhando por muitas revistas do mundo inteiro.

 

Figura 18 – Meu grande sucesso de artigo e kit – Saber 56
Figura 18 – Meu grande sucesso de artigo e kit – Saber 56

 

 

Foi uma transição importante das revistas que passaram a atrair muito mais o público não profissional. Até os anos 60 as revistas eram dirigidas principalmente aos técnicos reparadores e profissionais da eletrônica. A partir daí começaram a predominar os montadores amadores, os makers de hoje.

A transição total ocorre nos meados dos anos 70 com a chegada da Revista Saber Eletrônica e depois de outras que seguiram a nossa pegada. A partir dos anos 50 tivemos numa nova revolução no mundo dos componentes eletrônicos com a chegada do circuito integrado.

Na verdade, foi uma transição em que tivemos um dispositivo híbrido antes da chegada do CI criado por Jack Philby da Texas Instruments. Isso em 1958.

 

Figura 19 – Chega o circuito integrado – a reportagem nas revistas
Figura 19 – Chega o circuito integrado – a reportagem nas revistas

 

 

Além de compactos os circuitos podiam conter milhares de componentes levando ao crescimento inicialmente da eletrônica digital e depois da comutação com os microcontroladores e os microprocessadores.

Cada vez mais componentes podiam ser colocados num chip e a eletrônica se tornou extremamente complexa, mas sem a participação do montador que apenas trabalhava com as funções como hoje. Chegavam os computadores e a programação e com isso uma nova revolução.

Nos meados dos anos 80 muitos diziam qu as revistas de eletrônica iriam desaparecer dando lugar às revistas de informática ou ciência da computação. O computador teria chegado para desbancar a eletrônica. Mas, não foi exatamente o que ocorreu.

A chegada da internet disponibilizava todo o conteúdo das revistas que então podiam ser acessados instantaneamente sem a necessidade de comprar uma versão impressa que demorava para chegar ou sair.

 

Figura 20 – A chegada da Internet
Figura 20 – A chegada da Internet

 

 

As revistas de eletrônica começaram a vender menos e as mais fracas começaram a fechar. Algumas começaram a fazer sites, mas mesmo assim não era suficiente para sua manutenção. Nos anos 90 e 2000 a maioria das revistas técnicas havia fechado.

Eu mesmo que tinha trabalhado nas melhores revistas me vi chegando a aposentadoria precisando ter algo para fazer, pois sabia que ainda poderia fazer muito. Analisei a situação e vi que as revistas não estavam morrendo, mas sim passando por uma transformação e ainda seriam a mídia que acompanharia a evolução da eletrônica, mas de uma forma completamente diferente.

 

Figura 21 – As nossas revistas que ainda existem
Figura 21 – As nossas revistas que ainda existem

 

As revistas continuam a existir, mas fazendo parte de um complexo de mídias que interagem. Percebemos isso ao criar nosso site, nossas mídias e continuar com o que temos hoje: duas revistas que podem ser obtidas tanto no formato virtual como impresso.

 

Figura 22 – Nossas revistas em 2025
Figura 22 – Nossas revistas em 2025

 

 

As revistas funcionam como aplicativos com links para outras mídias onde se pode obter informações adicionais, acesso a artigos no site, livros, cursos, kits e muito mais. Tudo formando uma rede.

Algumas revistas tradicionais que desapareceram no formato impresso adotaram a mesma abordagem como a Elektor e a Nuts and Volts. Também temos revistas inglesas adotando a mesma abordagem como a ETI.

 

Figura 23 – Revistas atuais
Figura 23 – Revistas atuais

 

 

Enfim, as mídias ainda acompanham em seus artigos e projetos o que se faz na eletrônica.

Não podemos deixar de incluir nesse nosso artigo a presença das empresas que fabricam componentes, vende componentes e outros produtos nas páginas das revistas.

Algumas delas presentes desde o século passado e outras que mesmo chegando depois ainda sabem que a melhor maneira de chegar aos seus clientes é através de anúncios casados com matéria técnico.

Em especial, estamos com a Mouser Electronics há mais de 15 anos e sabemos que está empresa está atenta a divulgação dos produtos na mídia especializada de modo que as informações certas sejam dados para que os produtos sejam utilizados de forma correta e a possibilitar a criação de coisas novas.

 

Figura 24 – Vídeo produzido em parceria com a Mouser Electronics (mouser.com)
Figura 24 – Vídeo produzido em parceria com a Mouser Electronics (mouser.com)

 

 

Estou no mundo das revistas e da mídia técnica já mais de 65 anos e espero ainda contribuir muto para a divulgação da tecnologia e para sua história nas páginas das revistas mesmo que elas sejam virtuais.

 

 

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