Na verdade, quando comecei a entrar no mundo da eletrônica as válvulas ainda predominavam e as montagens com transistores ainda não eram populares. Na verdade, no Brasil, era difícil encontrar transistores para projetos, a não ser os que eram usados nos rádios transistorizados.
Comecei a me interessar pela eletricidade com experimentos muito simples a partir de um livro que ganhei de minha tinha quando devia ter 10 ou 11 anos. O livro chama-se Experiencias e Passatempos com eletricidade e pode ser baixado gratuitamente pelo link abaixo.

Link para baixar gratuitamente o livro:
https://www.newtoncbraga.com.br/?view=article&catid=42&id=16899-e-book-experiencias-e-passatempos-com-eletricidade-gratuito
Assim, meu primeiro contato com o verdadeiro mundo da eletrônica começou com as válvulas quando ganhei do meu pai um rádio Dunga de 5 válvulas tipo sem transformador (rabo quente) para poder “mexer e aprender”.

Na realidade, percebendo o interesse que eu tinha pelo rádio da minha mãe, não raro pegando e examinando, e até já fazendo alguma coisa de prático, ele resolveu comprar um novo para ela e deixou o velho comigo para “fazer experiências”, e eu realmente fiz.
Numa primeira fase eu simples entrei no mundo das ondas curtas procurando melhorar sua recepção destas faixas, fazendo e refazendo os ajustes e até criando uma saída para fones de ouvido.
Depois que entendi realmente como funcionavam seus circuitos, passei a fazer alterações mais complexas, como transformar a etapa de saída num transmissor valvulado para a faixa de ondas médias. Até já publiquei como fazer essa transformação. Encontra-se no site no link abaixo.

Veja os valores dos componentes no link:
https://www.newtoncbraga.com.br/mundo-das-valvulas/2363-v067.html
Transmitia o sinal para meu receptor transistorizado que havia ganho de uma tia procurando sempre melhorar o alcance e muito mais. Nas experiências iniciais o microfone era o próprio alto-falante do rádio, mas logo ganhei um microfone Astatic de cristal que passei a usar modulando o sinal já na entrada da 12AV6 que era a detetora e preamplificadora de áudio. Isso foi no início dos anos 60.

Ganhei esse microfone de uma tia que tinha escola e o usava num serviço de aviso. Tenha um problemão: o cristal que era de sal de Rochelle absorvia umidade com facilidade e ele perdia sensibilidade, O cristal precisava ser trocado. A estas alturas já conhecia bem o funcionamento de todas as válvulas, procurando realmente entender sua teoria através de livros e artigos. Nessa época havia um jornaleiro amigo de meu pai que todos os finais de semana trazia para ele as revistas de variedades como “O Cruzeiro”, para minha mãe uma revista feminina Argentina denominada “Para ti” de que ela gostava e quando saia a edição da Eletrônica Popular, para mim.
Nessa época já tinha o meu caderno de anotações em que eu registrava meus projetos e experimentos. Cheguei a ligar a saída de áudio a duas varetas separadas por uma boa distância e transmitir sinais de áudio através da terra.
Naquela época as válvulas eram caras e não raro as queimava em meus experimentos. Experimentos com meia válvula. Um fato interessante ocorreu nessa época em que eu, ainda jovem sem trabalhar não tinha dinheiro para comprar componentes. Foi nos anos 60. Ganhei, não me lembro de quem, uma válvula que o técnico havia tirado da TV num reparo. Faça alguma coisa com ela, se quiser. E eu fiz. A válvula não estava queimada. Era um duplo tríodo 12AU7 (ECC82) que estava com um dos triodos internos com um curto, não me lembro se era entre a grade e o catodo ou o anodo e experimentando, vi que a outra metade funcionava. Beleza!
Eu tinha meia válvula para meus experimentos e eu realmente aproveitei isso. Criei um pequeno chassi onde montei dois soquetes, um para uma 35W4 que tinha no meu velho rádio para ter a fonte e outro para a 12AU7, deixando os pinos de acesso ao triodo que funcionava ligados a uma pequena ponte de terminais e conectando coisas a essa ponte fiz diversas montagens como rádio, amplificador para fone, oscilador e até mesmo um transmissor. Um tio meu queria fazer o técnico que trocou a válvula devolver o dinheiro quando viu o transmissor, porque ela ainda funcionava. Expliquei que era só metade.
. Esse chassi e os experimentos ficaram registrados no meu caderno de anotações que até hoje tenho e do qual coloquei artigos e posts no Facebook e no site. A imagem da figura 8 mostra como eu desenhava no meu caderno os experimentos que fazia.

Meu caderno – Tudo que fazia na época em que comecei a praticar eletrônica era anotado num caderno que tenho até hoje. Nele estão minhas principais experiências montagens e naturalmente a primeira parte é dedicada às válvulas. Na figura 9 o caderno aberto em um dos amplificadores que montei.

Esse chassi tinha o diagrama (original) mostrado na figura 10 de modo que eu podia acessar a fonte, a grade da válvula, e o anodo.

As figuras foram escaneadas de meu caderno de anotações original. Foi com esse chassi e uma 12AU7 que aproveitei apenas um tríodo, que montei um rádio simples e um rádio regenerativo. Os diagramas estão na figura 11.

Evidentemente, um dos maiores problemas desse chassi experimental é que ele não tinha isolamento da rede de energia. Tinha o cuidado de plugar na tomada com a posição em que o terra ficava no chassi, para evitar que um contato acidental com ele me causasse choques. Na casa onde morei nos anos 50 e 60 havia um grande telhado onde instalei uma antena que possibilitava a recepção de estações de ondas curtas à note bem distantes, além da realização de muitos experimentos envolvendo recepção e transmissão de rádio. Mas, foi com esse rádio ABC que consegui meu primeiro QSL, cartão de verificação que então passei a colecionar. Foi da rádio Suécia Internacional que na época transmitia para o Brasil em português.

O receptor regenerativo com uma válvula tríodo foi uma experiência especial, pois enrolei as bobinas para a faixa de ondas curtas e juntando minhas economias comprei um fone de ouvido de 2 k ohms de impedância que passei a usar nas minhas montagens.
Os fones de cristal, que eu já tinha não eram bons para os circuitos valvulados pois sua impedância era alta demais e os circuitos operavam com tensões elevadas.
Cheguei a montar um fone de ouvido usando um pequeno alto-falante de 2,5 cm de um rádio transistorizado e um pequeno transformador de saída de 1 k ohms, usado em rádios transistorizados da época. Este fone de ouvido ainda é uma solução para os que precisam de fones de alta impedância para seus experimentos e não encontram mais os fones de cristal. No artigo do link damos a construção desse fone (figura 14). Você pode usá-lo em experimentos que exijam fones de alta impedância como rádios de galena, circuitos com válvulas e transistores.
https://www.newtoncbraga.com.br/projetos/15402-fone-experimental-art1723.html

Link para livro:
Experiências e Passatempos com Eletricidade:
Nessa época tinha duas fontes principais de componentes para os meus projetos. A primeira era a loja do Sr. José de Santis, pai do Edson de Santis a Eletrõnica Rei do Som, que somente depois descobri que era um primo de segundo grau da minha mãe.
Ficava na Padre João na Penha e depois se mudou para a Rua Antonio de Barros para depois ir para a Ceso Garcia onde estreitei os contatos com meu primo Edson da Santis e quando a loja passou a se chamar Rei de Som. Conseguia muita coisa com ele.

Veja mais no link:
https://www.newtoncbraga.com.br/?view=article&id=2029:art307&catid=52
A segunda fonte de componentes era a Rua Santa Ifigênia que costumava frequentar quando precisava comprar algum componente específico ou simplesmente ia explorar para ter novas ideias, ou descobrir um componente novo que logo procurava saber mais para incluir no meu “caderno de ideias” para usar em alguma coisa que inventava. Muitas vezes tinha de esperar algum tempo para juntar dinheiro e voltar para comprá-lo.
Foi lá que tomei contato com o jornal Eletrônica em Foco que era distribuído gratuitamente. Bastava você pegar seu exemplar no balcão das principais lojas.
Nessa época eu já gostava de escrever, tendo colaborado com o Jornal Mural do Colégio Estadual da Penha ou Nessa. Senhora da Penha onde estudava. Achei que podia colaborar com A Eletrônica em Foco e enviei um artigo, que logo foi aceito. Veja a figura que mostra 16 uma edição bem antiga.

Observe que naquela época eu já falava da eletrônica quântica com estruturas bidimensionais como o grafeno.
Como o artigo saiu, comecei a enviar mais artigos periodicamente e o público parece que passou a ter uma especial atenção para com eles, tanto que não passou muito tempo, fui chamado pelos diretores daquela publicação para uma conversa. O Dr. Ivan Alves Correa, seu proprietário na época, me contratou para produzir artigos. Eu receberia pelas laudas, ou seja, pelo tamanho dos artigos e pelo seu interesse.
Foi meu primeiro emprego como “redator técnico” de uma publicação de eletrônica. Além da minha primeira máquina de escrever (eu ainda não tinha uma), recebi um gravador portátil para eventuais entrevistas que ele me pediria. La fiz amizade com um autor que era dos maiores na imprensa técnica da época. Dono de revistas como Eletrônica para Todos, Radiotécnico, trocava muitas ideias com Apollon Fanzeres ou A. Fanzeres, com quem aprendi muito, principalmente sobre válvulas que era o tema de maior interesse dele. Na figura abiaxo duas publicações do Fanzeres.
Fânzeres tinha uma rixa enorme com o Gilberto Affonso Penna da Antenna. Eram inimigos mortais. Como o motivo não vem ao caso nesse texto, qualquer dia conto em posts no Facebook ou mesmo num artigo do site, os motivos que levaram os dois a serem inimigos.

Fanzeres morreu de forma trágica num acidente. Morava no Rio de Janeiro e um dia caminhando pela rua, ocorreu vendaval repentino que derrubou um outdoor sobre ele.
Link:
Pequena história de A. Fanzeres.
https://www.newtoncbraga.com.br/?view=article&id=988:col204&catid=113
Posteriormente entrei em contato com os filhos dele para ver se queriam me vender sua biblioteca que era fabulosoa. Infelizmente, como ocorre em muitos casos como esse, a biblioteca foi descartada como “papel velho” vendida para um sebo que certamente a pulverizou os livros por valores muito abaixo do que realmente tinham. Uma boa quantidade de artigos do Apollon Fanzeres está no meu site, com autorização para publicação do filho dele, no link:
https://www.newtoncbraga.com.br/?view=article&id=988:col204&catid=113

Assim, ao lado dos meus experimentos que já incluía transistores e depois circuitos integrados além de artigos técnicos de um estilho que eu gostava que era falar de satélites, de ondas de rádio, novas descobertas, novas componentes, também produzir artigos sobre valvulados. Estávamos chegando ao final dos anos 60. Mas, eu continuava com meus “hobbies” que eram a escuta de ondas curtas, já reunindo uma coleção de QSLs, montagens experimentais usando válvulas e transistores.
Artigo do site:
A escuta das ondas curtas:
https://www.newtoncbraga.com.br/telecomunicacoes/16659-o-que-sao-ondas-curtas-oc-tel236.html
https://www.newtoncbraga.com.br/telecomunicacoes/13912-a-escuta-de-ondas-curtas-tel237.html
https://www.newtoncbraga.com.br/telecomunicacoes/12497-recepcao-de-ondas-curtas-tel220.html
Continuava a frequentar a Rua Santa Ifigênia, mas agora com olhos diferentes. Já era um “profissional” da imprensa técnica. Bem jovem ainda com pouco mais de 18 anos, tendo perdido meu pai em 1963, eu sabia que essa função poderia ser importante e que fazendo engenharia e teria muito mais. Me dediquei.
Era interessante, pois o pessoal começava a comentar meus artigos nas lojas, mas como não havia o “retrato” dos autores dos artigos nas publicações, ninguém sabia como eu era. “Navegava” incógnito pelo mundo da eletrônica da Rua Santa Ifigênia. Era muito interessante.
Assim, aquele “jovem” que às vezes observava curioso o balconista trocar ideias sobre um componente de um projeto que ele estava montado, não tinha a mínima ideia de que o autor do projeto estava ali ao lado deles observando, e a gente via cada coisa, mas não falava nada. Só observava. Coisas como o balconista recomendar componentes errados que certamente iriam comprometer o funcionamento do projeto, ou dar explicações das mais absurdas sobre o modo como funcionava o circuito...
Eu aproveitava essas observações para fazer artigos, muitos eram “alertas” para os compradores não caírem na conversa dos vendedores que naquela época (assim como hoje) eram muito espertos. As compras via internet mudam um pouco isso, mas ainda temos o problema de vendas de componentes falsos, ruins ou mesmo queimados.
Uma loja importante para mim na época era a Valvolândia da Rua Santa Ifigênia onde comprava por bons preços as válvulas que precisava. Eram somente válvulas. Depois essa loja, com a queda da venda das válvulas e o aparecimento de produtos mais importantes, mudou seu foco vendendo praticamente tudo de eletrônica.
Comecei a frequentar também nessa época a Loja do Livro Eletrônica onde fiz amizade com Dona.Nauá que a dirigia. Ela me avisava de novos lançamentos de livros ou a chegada de revistas estrangeiras. Gastava uma boa parte das minhas economias lá. Em especial me atraiam os livros da série Photofact, Sams, TAB Books por onde cheguei a publicar livros meus nos Estados Unidos e outros que traziam projetos de autores americanos como Lou Garner, Forest Mims, Don Lancaster, etc e que tenho até hoje.

Fiz ainda outros projetos valvulados e em especial um transmissor de duas válvulas, uma 35W4 e outra 50C5, obviamente de meu primeiro rádio que fez muito sucesso. Montado numa base de madeira com uma folha de lata sobre ela para servir de chassi e blindagem, conforme mostra a figura 20.

O artigo completo está no site com o link:
https://www.newtoncbraga.com.br/mundo-das-valvulas/8862-transmissor-valvulado-am-v615.html
No artigo do site melhorei a disposição dos componentes e usei um chassi de metal apropriado. Existem lá também outros transmissores valvulados que montei depois. Ficou tão bom que levando-o para escola, logo o presidente do grêmio Sergio Mantovani com quem tomo meus cafés quase toda semana, teve a ideia de usá-lo como estação de rádio da escola.
Ele passou então de classe em classe convidando os alunos a trazer seus radinhos portáteis para o dia seguinte que haveria uma surpresa. A rádio da escola estaria dando notícias e mensagens. Demos uma frequência livre na faixa de AM e tudo funcionou maravilhosamente. Naturalmente o locutor foi ele que depois até chegou a trabalhar numa rádio, mas sempre esteve envolvido com educação, trabalhando como professor, diretor de escola e aposentando-se como reitor da Universidade de Guarulhos.
O transmissor tinha somente uns 200 metros de alcance e assim não perturbou ninguém. Uma limitação que era um problema é que ele não usava transformador, assim de vez em quando os locutores tomavam belos choques no microfone de metal...
Mas, o sucesso não ficou nisso. Nossa professora de ciências ficou tão maravilhada com minha montagem que quis me inscrever no concurso “Cientistas do Amanhã” que era patrocinado pelo MEC. Fiz ver que o transmissor não era uma invenção, mas sim uma montagem de algo que já existia, se bem que dei um toque meu no circuito, como sempre fazia.
Mas, ainda tinha um especial carinho pelas válvulas e pela rádio recepção. Nessa época surgiu uma oportunidade interessante através de um amigo que trabalhava no departamento de materiais da VASP.














