Em um vídeo de meu canal, mostrei meu receptor da Segunda Grande Guerra em Funcionamento. Era um receptor usado nos aviões C47 de transporte com a capacidade de sintonizar frequências de 200 kHz a 30 MHz. Neste artigo voo analisar seu funcionamento, a partir do próprio manual original.

O BC348 foi fabricado pela Signal Corps durante a Segunda Grande Guerra. O que possuo tem o manual de 1943 e estava num DC3, a versão civil do transporte militar do C47 que operava na antiga VASP como avião de passageiros.

Um acidente fez com que ele fosse desativado (perda total), mas o receptor ficou intacto. Comprei-o como “sucata” em 1967 e o restaurei, mantendo-o em funcionamento como pode ser visto pelo vídeos (Vídeos: https://www.youtube.com/watch?v=B1JKUfeMNg8  e https://www.youtube.com/watch?v=xJT6JRj-nI4 )

Na figura 1 temos uma foto deste receptor, que era encaixado no painel frontal da aeronave.

 


 

 

 

A primeira página do manual é mostrada na figura 2.

 

 

Figura 2 – Primeira página do manual de manutenção
Figura 2 – Primeira página do manual de manutenção

 

O receptor totalmente valvulado tinha uma construção extremamente robusta, como a aplicação exigia, sendo o chassi e a parte frontal retirados da caixa embutida no painel, simplesmente soltando-se dois parafusos.

Retirado o chassi tínhamos o acesso ao aparelho em si, com destaque às suas principais partes, com destaque os conjuntos de bobinas de FI e osciladora com os furos para os ajustes, conforme mostra a figura 3.

 

Figura 3 – O aparelho aberto.
Figura 3 – O aparelho aberto. | Clique na imagem para ampliar |

 

 

Na figura 4, obtida do manual temos a descrição das partes.

 

Figura 4 – Figura original do manual
Figura 4 – Figura original do manual

 

 

Observe a diferença entre a foto e a figura do manual. Podemos explicar.

Na versão original, que é a mostrada na figura 4, a fonte de alimentação era um dinamotor, ou seja, um motor-dínamo. Ligado em 28 V que era a tensão padronizada das aeronaves, ele gerava os 12 V necessários aos filamentos das válvulas e também a alta tensão da ordem de 350 V para os anodos das válvulas nos circuitos de alta tensão.

No aparelho da foto, temos a adaptação feita para ele funcionar com 110 V da rede de energia. No meu caso, simplesmente tirei o dinamotor e fiz a conexão da fonte por um soquete e conector traseiro.

Também fiz outras alterações como mudar a conexão frontal para o jaque de fones, instalando no interior do aparelho um transformador de saída para válvulas e ligando este jaque a ele. Assim, por um plugue, eu poderia ligar ou um alto-falante comum ou um fone de baixa impedância.

O receptor tem 6 faixas de onda:

1 – 200 a 500 kHz

2 – 1,5 a 3,5 MHz

3 – 3,5 a 6,0 MHz

4 - 6,0 a 9,5 MHz

5 – 9,5 a 13,5 MHz

6 – 13,5 a 18 MHz

Observe que ele não tinha a faixa de ondas médias de 550 a 1600 kHz. As estações desta faixa que ouvia estavam nas extremidades (entre 1600 e 1650 kHz).

Logo que consegui este receptor, com medo de haver dificuldades futuras para obtenção das válvulas, corri à rua Santa Ifigênia e comprei um jogo completo dos tipos usados. Tenho até hoje algumas, inclusive tipos russos metálicos.

 

Figura 5 – Válvulas metálicas russas
Figura 5 – Válvulas metálicas russas

 

 

Analisando as etapas, vemos que o receptor tinha uma configuração bem interessante.

Assim, na entrada tínhamos 4 etapas sintonizadas.

As duas primeiras etapas eram amplificadores sintonizados na frequência da estação que estava sendo recebida. Era a unidade de entrada e a unidade de RF. A etapa seguinte era a etapa detetora e em seguida havia a etapa osciladora. (figura 6)

 

Figura 6 – As etapas de RF
Figura 6 – As etapas de RF

 

Isso implicava que por baixo dessas etapas havia um enorme capacitor variável de 4 seções e uma chave frontal com um sistema de engrenagens que selecionada as bobinas das 6 faixas de ondas.

Veja então que dentro das caixinhas mostradas havia, em cada uma, 6 bobinas que deveriam ser ajustadas de forma independente. Não era um ajuste simples, pois deveria ser feito faixa a faixa.

Como exemplo da complexidade do circuito de cada caixinha mostramos o desenho do manual da caixinha que continha as bobinas da etapa de RF.

 

Figura 7 – As bobinas e a chave seletora da etapa de RF
Figura 7 – As bobinas e a chave seletora da etapa de RF

 

 

Na figura 8 mostramos os pontos de ajuste de cada uma das etapas.

 

Figura 8 – Pontos de ajuste
Figura 8 – Pontos de ajuste

 

 

E, depois desse conjunto havia ainda as três bobinas de FI (Frequência Intermediária) que operavam numa frequência de 915 kHz. (veja figura 6)

O circuito continha ainda outras bobinas.

Assim, havia uma bobina para neutralização que era usada no circuito de filtro a cristal (CW) para telegrafia. Uma para o oscilador a cristal, uma bobina para a armadilha de FI e dois choques.

Na foto do manual temos alguns pontos de interesse dados por números. (Figura 9)

 

Figura 9 – Pontos do painel
Figura 9 – Pontos do painel

 

 

Destaques:

302 – Chave seletora de faixas

290 – Manivela de sintonia

174 – Terminais de antena e terra

185 – Lâmpada piloto para iluminar a escala

293 – Seletor do moto de recepção – CW

304 – Filtro a cristal

294 – Controle de volume

 

 

O diagrama desta etapa, incluindo a válvula é mostrado na figura 10.

 

Figura 10 – A etapa de RF
Figura 10 – A etapa de RF

 

 

Podemos no diagrama os 8 trimmers de ajuste associados a cada uma das 6 bobinas. Já podem perceber que colocar este receptor em seu rendimento máximo não era nada fácil!

É claro que naquela época não havia o uso da placa de circuito impresso numa montagem desse tipo. Assim, os componentes eram soldados diretamente nos terminais dos soquetes das válvulas ou em ponte de terminais. As conexões mais longas eram feitas através de fios. Para que vocês tenham uma ideia (caso desejem recuperar um), na figura 11 temos uma vista parcial da montagem, obtida do próprio manual.

 

Figura 11 – Vista parcial sob o chassi
Figura 11 – Vista parcial sob o chassi

 

 

Não é preciso dizer muito sobre a sensibilidade deste receptor de 8 válvulas.

Devidamente alinhado, a sensibilidade em todas as faixas surpreendia. Consegui centenas de cartões QSL usando este rádio e uma boa antena externa. Na figura 12 mostro alguns cartões QSL de estações de ondas curtas e médias que consegui usando este receptor.

 

Figura 12 – Os cartões QSL – alguns da minha coleção
Figura 12 – Os cartões QSL – alguns da minha coleção | Clique na imagem para ampliar |

 

 

Naquela época, havia os SWL (Short Wave Listners) que eram radioamadores que apenas escutavam estações distantes de radiodifusão.

Quando escutávamos uma estação distante, procurávamos o endereço e enviávamos via correio uma “reportagem de escuta” solicitando a confirmação através de um cartão QSL. A maioria das estações enviava então o cartão de confirmação (tipo postal), que os amadores colecionavam avidamente.

Enfim, uma relíquia que guardo até hoje e que funciona perfeitamente.

Nota: o ponto crítico na manutenção do bom funcionamento é a sua chave seletora que comuta as bobinas das diversas faixas. Como em qualquer rádio que use esse tipo de componente, ela oxida.

Uma limpeza com WD40 e movimentando algumas vezes a chave seletora, normalmente resulta na devolução de um bom funcionamento.

E, para completar, uma foto minha ao lado do meu receptor. Vejam os vídeos.

 

Figura 13 - Foto – O autor com seu receptor
Foto – O autor com seu receptor

 

 

Veja vídeos:

https://www.youtube.com/watch?v=B1JKUfeMNg8 

https://www.youtube.com/watch?v=xJT6JRj-nI4 

 

 

 

 

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