O espaço é um ambiente que desafia não apenas a engenharia das naves, mas os limites biológicos do corpo humano. Longe da proteção da atmosfera e do ciclo natural do dia e da noite, o organismo dos astronautas entra em um estado de descontrole biológico. A solução para monitorar essa vulnerabilidade vem de pesquisadores brasileiros e foi utilizada na missão Artemis II, que levou humanos de volta à órbita lunar após mais de meio século.
Denominada actígrafo, a tecnologia foi desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e será integrada a um relógio inteligente utilizado pelos tripulantes da NASA. Fruto de décadas de estudo no Instituto de Biociências (IB-USP) e na Escola de Engenharia de São Carlos (EESC-USP), o sistema consiste em algoritmos avançados capazes de processar dados fisiológicos em tempo real.
Diferente de sensores comerciais comuns, a tecnologia da USP foi construída para suportar as condições extremas de uma viagem lunar. Ela funciona como um "sentinela silencioso", transformando dados brutos de movimento e calor em informações vitais para a equipe médica da missão na Terra.
O objetivo não é apenas contar horas, mas decifrar como o isolamento e a radiação afetam o ritmo circadiano e a saúde mental no espaço profundo. O dispositivo monitora a temperatura corporal periférica, um indicador crucial da qualidade do sono e dos ciclos de atividade e repouso, identificando sinais precoces de estresse. A análise da exposição à luz também permite sugerir ajustes na iluminação da cabine para "enganar" o cérebro e manter o equilíbrio hormonal.
Na Terra, nosso corpo é guiado pelo ciclo de 24 horas entre luz e sombra. No espaço, essa referência desaparece, e a ausência desse marcador causa distúrbios de sono, fadiga extrema e queda no sistema imunológico.
O esforço para manter o equilíbrio biológico a quase 400 mil quilômetros de distância também promete deixar um legado valioso para quem fica em solo firme. Os dados colhidos durante os dez dias de missão servirão de base para tratar distúrbios de sono e fadiga crônica em profissionais que enfrentam rotinas extremas, como médicos e controladores de tráfego aéreo.
Ao compreender melhor o sistema biológico dos astronautas, essa tecnologia reforça que a conquista do espaço profundo é, em última análise, uma jornada de autoconhecimento, uma busca para entender como proteger a vida em qualquer lugar onde o ciclo do Sol deixe de ser o nosso guia.
O projeto é fruto de uma colaboração internacional que prova que a ciência brasileira desenvolve soluções que atendem aos padrões de precisão exigidos pela física espacial. Garantir o bem-estar cognitivo dos astronautas é tão importante quanto garantir que o combustível dure a viagem inteira. Se a humanidade pretende estabelecer bases permanentes na Lua ou em Marte, a tecnologia brasileira fará parte dessa nova era.

Fontes:
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https://www.newtoncbraga.com.br/como-funciona/3901-art532.html
















