Escrito por : Alexandre J. Nário
Mostraremos nesse artigo uma série de informações, dicas e macetes relevantes que visam agilizar e facilitar o reparo e manutenção nos mais variados tipos de aparelhos eletrônicos de uso domésticos encontrados nos lares brasileiros. As experiências adquiridas em diversos casos de reparação acabam, com o tempo, revelando que muitas das avarias apresentadas em diferentes equipamentos são, estatisticamente, os mesmos, bastando o técnico ser perspicaz e seguir algumas práticas para obter o êxito necessário para o sucesso da reparação.
1. Obter informações sobre o equipamento
É imprescindível, de início, coletar o máximo de informações acerca do aparelho que chega na bancada do profissional de service. Saber a marca/modelo, buscar o esquema elétrico (figura 1), ter acesso ao manual de serviço e datasheet (documento técnico que fornece as especificações de um componente eletrônico) ajudam a tornar o conserto mais rápido e eficiente. Participar pela internet de fóruns de discussões específicos e grupos temáticos nas redes sociais também podem auxiliar o técnico a esclarecer dúvidas, pois os membros promovem debates, compartilham conhecimentos e estimulam argumentações estruturadas.

2. Limpeza da placa e componentes
Com o aparelho aberto, é importante realizar uma boa limpeza prévia na placa de circuito impresso para facilitar a reparação. Para limpar e retirar as impurezas dos componentes eletrônicos é sugerido utilizar álcool isopropílico (spray ou líquido) com o auxílio de uma escova ou pincel macio antiestáticos (figura 2). Para os componentes que possuem partes móveis (conectores, potenciômetros, chaves, encoders, coolers, etc) utilize lubrificante líquido aerossol (WD40, por exemplo), pois tal produto limpa, protege contra oxidações, expele a umidade e libera mecanismos travados. Evite utilizar thinner, pois pode manchar a placa e afetar soldas e componentes sensíveis e delicados.

3. Análise visual detalhada
Antes de iniciar o diagnóstico é aconselhado realizar uma minuciosa e detalhada inspeção visual em busca de componentes carbonizados, capacitores estufados, algum mau contato entre a placa e componentes, sinais de sobreaquecimento e oxidações, soldas frias, além de pequenas trincas e rachaduras na placa de circuito impresso. O uso de uma lupa ou microscópio eletrônico (que atualmente possui um preço bastante acessível) facilita muito a análise. Na figura 3 temos um exemplo de um microscópio eletrônico simples. Uma análise visual detalhada pode contribuir muitas vezes para descobrir a causa do defeito.

4. Defeitos intermitentes
Avarias que se manifestam de forma intermitente são as mais difíceis de serem solucionadas, pois podem ocorrer, ou não, a qualquer momento de forma aleatória e as causas podem ser as mais diversas. Testes estáticos nos componentes fora do circuito muitas vezes não são eficientes, pois é comum o componente apresentar alterações das características apenas quando em funcionamento no circuito. Inicialmente, refaça as soldas da placa, pois muitos equipamentos utilizam solda sem chumbo (lead-free), sendo comum apresentar problemas de mau contato devido a microfissuras (figura 4). Leves pancadas com o cabo da chave de fenda em alguns locais do equipamento também podem evidenciar a falha. Na maioria das vezes é necessário um exame mais criterioso para encontrar o defeito.

5. Reflow e reballing
Outros procedimentos mais complexos podem se tornar necessários para solucionar alguns defeitos apresentados pelos aparelhos. Temos, por exemplo, o reflow e o reballing. Reflow é uma técnica onde os circuitos integrados que possuem encapsulamento BGA (Ball Grid Array) são aquecidos (através de uma estacão de ar quente) ao ponto de fusão das esferas (soldas). Com isso, muitas vezes, as soldas voltam a fixar contato entre o componente e a placa, solucionando o problema. A recomendação é que o procedimento do reflow só deva ser realizado com a permissão do cliente. Em resumo, é uma técnica que tem o objetivo de recondicionar as soldas (esferas de chumbo), podendo apresentar os mesmos problemas depois de um certo tempo de uso, pois a solda esquenta e resfria, criando expansão e contração no material ao longo do tempo. Já o reballing é a técnica que permite o reparo ou a substituição de circuitos integrados BGA, a partir da troca das soldas (esferas) que conectam o componente à placa (figura 5). É importante compreender que ambas as técnicas não garantem uma eficácia na solução do defeito, sendo o reballing mais eficiente que o reflow.

6. Instrumentação
Antigamente em muitos casos bastava uma simples chave de fenda para resolver a maioria dos problemas apresentados nos aparelhos eletrônicos. Atualmente as coisas mudaram. Para uma maior eficiência e agilidade na hora da reparação, recomendamos o profissional de service adquirir, dentre outros, os seguintes aparelhos e instrumentos:
1. Osciloscópio digital;
2. Multímetros (analógico e digital);
3. Microscópio eletrônico;
4. Estação de solda e ar quente;
5. Notebook com acesso à internet;
6. Fonte de alimentação ajustável;
7. Câmera térmica infravermelha (figura 6).

7. Atualização de software
Hoje em dia, muitos problemas podem ser solucionados bastando apenas a atualização de software (dados embutidos no hardware, responsáveis por fazer com que o aparelho funcione conforme o esperado ou melhore o desempenho). Realizar a atualização é um procedimento normalmente simples e importante para ficar em dia com as últimas correções de eventuais falhas (bugs) no equipamento. As atualizações normalmente são feitas copiando para um pen drive (via USB) os arquivos disponibilizados nos sites dos fabricantes dos aparelhos e transferindo-os para o equipamento com problema. Após alguns minutos do carregamento dos dados, o defeito normalmente é solucionado. Nos equipamentos Smart (figura 7), o carregamento dos dados é realizado via internet, dispensando o uso do pen drive e tornando o procedimento mais prático. As atualizações são fundamentais para corrigir bugs, aumentar a segurança e, muitas vezes, adicionar novas funcionalidades aos equipamentos. Todavia, se realizadas de maneira inadequada, podem levar a sérios problemas, como falhas no funcionamento ou até mesmo inutilização do aparelho.

8. Códigos de erros
Códigos de erros são mensagens que aparecem no visor (painel), tela ou no LED stand by (quantidade de piscadas) dos aparelhos para indicar que algo não está funcionando corretamente. De início, é muito provável que o técnico não saberá o significado da mensagem apresentada e nem como resolver a falha, pois cada código de erro está associado a um problema específico e a sua interpretação é fornecida geralmente através do manual de serviço ou site do fabricante (figura 8). Tais códigos visam auxiliar o técnico a identificar, de maneira fácil e imediata, o setor que o defeito se manifesta, permitindo que se saiba de forma direta qual é a falha, possibilitando com isso uma solução rápida.

9. Checkpoint
O termo checkpoint se refere a pontos de inspeção (testes) localizados em lugares estratégicos nos diversos circuitos do aparelho e tem a finalidade de coletar informações e verificar se o setor está ou não funcionando corretamente. É utilizado em referência a locais onde são realizadas análises de tensões e sinais. Os dados coletados nos checkpoints (através do multímetro ou osciloscópio, por exemplo) são comparados com as informações fornecidas no manual de serviço ou diagrama elétrico do aparelho, auxiliando, com isso, o técnico a descobrir o setor defeituoso.
10. Informações gerais importantes
Finalizando, segue algumas práticas que podem agilizar o reparo de muitos tipos de aparelhos eletrônicos:
a) em muitos defeitos é recomendado testar, de início, os componentes que circulam correntes elevadas;
b) medir as tensões +B nos diodos zeners e nas saídas dos integrados reguladores;
c) verificar os circuitos de clock, reset e inicialização do aparelho;
d) com o auxílio do multímetro e osciloscópio, seguir as tensões DC e sinais AC nos mais diversos pontos do equipamento, sempre comparando com os valores fornecidos pelo fabricante através do esquema elétrico ou manual de serviço.
e) nos circuitos que operam com frequências elevadas, verifique a ESR (Resistência Série Equivalente) dos capacitores eletrolíticos.
f) durante a manutenção, utilize lâmpadas em série para prevenir danos maiores quando ligamos o aparelho à rede AC para um teste de funcionamento.
Conclusão
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