Imagine um grande centro de controle de tráfego urbano responsável por gerenciar o trânsito de uma metrópole. Em um modelo tradicional, uma única central computadorizada monitora cada rua, acompanharia cada veículo e tomaria individualmente todas as decisões de abrir ou fechar os semáforos da cidade. No entanto, se o tráfego ficasse intenso demais, essa central ficaria sobrecarregada, gerando atrasos em todas as rotas. Para evitar esse gargalo, a cidade implementa um novo sistema. Em vez de depender apenas da central, cada cruzamento passa a ter um pequeno computador local. 
Na neurociência, acreditava-se que o cérebro funcionava prioritariamente como essa grande central única, centralizando e orquestrando todos os comandos de ação do corpo. No entanto, um mapeamento sem precedentes realizado por pesquisadores da Escola de Medicina de Harvard e da Universidade de Princeton revelou que o sistema nervoso de um dos organismos mais estudados do planeta funciona exatamente como a cidade descentralizada.

Nota: isso está ocorrendo em outras aplicações práticas como, por exemplo nos automóveis em que uma arquitetura descentralizada está sendo implementada. Veja artigo indicado no fim da notícia.

O estudo, publicado na revista científica Nature, apresentou o primeiro conectoma completo, o mapa da fiação do sistema nervoso que mostra como cada neurônio está ligado aos demais e por quais caminhos as informações percorrem o organismo. Ao reconstruir todas essas conexões no sistema nervoso central de uma mosca-da-fruta (Drosophila melanogaster) adulta, os pesquisadores integraram o cérebro ao cordão nervoso do inseto, estrutura equivalente à nossa medula espinhal. O resultado revelou uma surpresa: comportamentos complexos podem emergir de circuitos neurais locais distribuídos pelo corpo, sem depender constantemente de um comando centralizado do cérebro.


A engenharia da reconstrução e o salto técnico

Mapear a fiação de um sistema nervoso composto por cerca de 160 mil neurônios e milhões de sinapses exigia uma precisão extraordinária. Cientistas já haviam mapeado o cérebro da mosca isoladamente em projetos anteriores, mas ainda faltava a ponte fundamental entre o centro de processamento e os órgãos que efetivamente executam os movimentos.
Para construir essa representação tridimensional contínua, os pesquisadores desenvolveram o BANC (Brain and Nerve Cord, ou "Cérebro e Cordão Nervoso"), um grande conjunto de dados que reúne toda a reconstrução digital do sistema nervoso da mosca. Para isso, uma única mosca foi dividida em milhares de fatias microscópicas. Utilizando microscopia eletrônica de alta resolução, o grupo gerou milhões de imagens individuais capazes de registrar as sinapses, pequenas regiões de contato onde um neurônio transmite informações para outro.
O processamento desse enorme volume de dados só foi possível graças ao uso de ferramentas de inteligência artificial para alinhar todas as imagens e reconstruir os circuitos. Pela primeira vez, a ciência conseguiu rastrear o fluxo completo da informação, desde a recepção de um estímulo sensorial em uma pata ou asa, passando pela integração no cordão nervoso, até a execução do movimento.


Circuitos locais e a quebra do "centro de comando"

A análise detalhada do mapa trouxe à tona a principal descoberta do estudo. A execução de ações motoras refinadas, como caminhar de forma sincronizada, bater as asas ou realizar movimentos de alimentação, não é orquestrada diretamente por ordens individuais vindas do cérebro.
Esses comportamentos são gerenciados por pequenos circuitos de neurônios especializados, localizados no próprio cordão nervoso. As patas do inseto, por exemplo, possuem circuitos dedicados que se comunicam diretamente entre si. Quando a mosca caminha, as patas trocam sinais locais para ajustar a marcha e manter o equilíbrio sem precisar consultar o cérebro a cada passo.
O cérebro atua em um nível de abstração mais elevado. Ele envia sinais de contexto, integrando informações visuais, estado interno de fome e sinais hormonais, para autorizar ou modular determinado comportamento. Já a microgestão do movimento fica sob responsabilidade dos circuitos locais.
Essa arquitetura também oferece uma vantagem prática. Ao descentralizar o processamento motor, o sistema nervoso reduz o consumo de energia e aumenta a velocidade das respostas, características essenciais para a sobrevivência de um pequeno invertebrado.
Uma ponte para o bem-estar animal e a inteligência artificial
Ao demonstrar que o processamento sensorial e motor ocorre em uma rede integrada e altamente modular, o estudo dialoga diretamente com outras descobertas recentes sobre a complexidade dos invertebrados. Pesquisas que apontam a existência de respostas de autoproteção direcionadas, como reações a estímulos nocivos em grilos, e traços de "personalidade" individual em insetos encontram no conectoma um respaldo estrutural. Em outras palavras, o mapa da fiação neural mostra que esses animais possuem a organização biológica necessária para produzir respostas flexíveis e adaptáveis, e não apenas reflexos automáticos.
Além disso, a disponibilização pública e gratuita do conectoma abre novas possibilidades para diferentes áreas da ciência. Na robótica biomimética, área que desenvolve robôs inspirados na natureza, a arquitetura descentralizada observada na mosca pode servir de modelo para sistemas mais eficientes. O mesmo princípio também pode inspirar novos modelos de inteligência artificial e impulsionar pesquisas em neurociência comparada, ajudando a investigar se mecanismos semelhantes também estão presentes em mamíferos e seres humanos, incluindo o papel da medula espinhal na automatização dos movimentos. 

 

 

Conjunto completo de neurônios no cérebro do inseto, reconstruído por meio de microscopia eletrônica com resolução de sinapses.
Créditos: Johns Hopkins University/University of Cambridge. 

Fontes:
https://hms.harvard.edu/news/researchers-publish-first-complete-connectome-fruit-fly-brain-spinal-cord


Artigos do site indicados:
Como funcional os Sistemas Eletrônicos do Automóvel 
https://www.newtoncbraga.com.br/como-funciona/4142-art567.html 

 


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Luiza Campos é estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Campus Frederico Westphalen, Brasil. Movida pela curiosidade, está sempre atenta às novidades e às transformações no mundo das diversas comunicações, mantendo sempre o compromisso do jornalismo com a verdade.

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