A visão científica de que o esquecimento humano era uma falha lamentável do sistema nervoso, uma simples deterioração passiva ou um defeito mecânico dos circuitos neurais ao longo do tempo, manteve-se predominante até o neurocientista argentino Iván Izquierdo modificar essa perspectiva. Izquierdo provou experimentalmente que o esquecimento não é um erro do sistema, mas um processo ativo, fisiológico, seletivo e fundamental para a nossa sobrevivência e saúde mental. Afinal, lembrar de absolutamente todos os detalhes insignificantes do cotidiano geraria um colapso cognitivo. Como o personagem do livro de Jorge Luís Borges, Funes, o memorioso. Como Izquierdo sintetizou, "Somos aquilo que decidimos esquecer."
Enquanto a biologia evolui, a engenharia de hardware sempre buscou acumular dados, reter cargas elétricas em portas lógicas e congelar estados fixos de tensão para que absolutamente nada se perdesse pelo caminho. Na eletrônica tradicional, como bem detalha o artigo clássico Como Funcionam as Memórias", os dispositivos sempre foram projetados sob a lógica de reter estados fixos, seja de forma volátil ou permanente, exigindo ciclos elétricos complexos para apagar ou regravar informações. Contudo, quando o acúmulo de dados satura o sistema, o resultado inevitável na bancada é a sobrecarga crônica de processamento e um desperdício massivo de energia elétrica. 
A resposta para esse impasse estrutural acabou de nascer nos laboratórios de ponta e traz uma guinada fascinante: a tecnologia, enfim, imitou a biologia. Pesquisadores da Universidade Nacional de Seul, na Coreia do Sul, acabam de criar o primeiro componente semicondutor da história especializado justamente em esquecer, um marco que podemos batizar de "Esquicistor".

 


A Física do Esquecimento

Publicado nas páginas da revista  Advanced Science, o estudo apresenta um avanço na física dos materiais ao introduzir o conceito da junção túnel antiferroelétrica (AFTJ). O princípio de funcionamento baseia-se em uma corrente elétrica que varia de maneira dinâmica de acordo com o histórico de entradas quando o componente é energizado. Fazendo um paralelo direto com os mecanismos sinápticos estudados por Izquierdo, o sistema retorna naturalmente ao seu estado original ao longo do tempo após o desligamento, consumindo o próprio fluxo temporal como parte integrante da lógica do circuito.
Para estruturar fisicamente esse dispositivo inovador de dois terminais, a equipe sul-coreana combinou o óxido de zircônio com o óxido de índio, gálio e zinco amorfo (a-IGZO). Em vez de encarar essa reversão espontânea como uma falha de retenção ou um mero defeito de projeto, os cientistas transformaram o fenômeno físico em uma função computacional primária e intencional. Esse "esquecimento natural" elimina por completo a necessidade de ciclos mecânicos ou pulsos elétricos complexos separados para a reinicialização da memória.


O Fim da Sobrecarga e a Eficiência em Séries Temporais

Na arquitetura de computadores e microcontroladores convencional, lidar com o fluxo contínuo de dados temporais, como ondas de fala humana, biossinais médicos complexos ou leituras contínuas de sensores ambientais, exige rotinas pesadas, repetitivas e custosas para apagar e resetar registros a cada instante.
Com o novo Esquicistor operando a uma velocidade relâmpago de 192 nanossegundos e exigindo um gasto de apenas 115 femtojoules (**), o paradigma operacional na bancada muda completamente de figura. O componente consegue processar sequências contínuas de dados em tempo real, filtrando o que é estritamente relevante e descartando o ruído antigo antes que ele tenha a chance de saturar o barramento ou o processador.
Nos testes práticos de validação realizados pelos pesquisadores, o componente demonstrou uma precisão impressionante de 90,4% no reconhecimento de dígitos manuscritos e obteve um desempenho formidável na previsão de séries temporais complexas, antecipando com exatidão variações bursáteis e tendências de mercado.


Rumo aos Sistemas de IA de Borda

Ao transformar a perda controlada de dados em uma ferramenta de otimização inteligente, esse marco tecnológico abre portas definitivas para a próxima geração de hardwares voltados à inteligência artificial de baixo consumo. Trata-se de uma tecnologia desenhada especificamente para operar na borda (edge computing): seja em dispositivos vestíveis de monitoramento de saúde, em sistemas de direção autônoma ou nas malhas complexas da Internet das Coisas (IoT) industrial. O grande ganho é garantir alta performance sem depender de conexões pesadas e constantes com a nuvem.
A moderna engenharia de materiais nos prova mais uma vez que a sabedoria inerente aos sistemas complexos, sejam eles biológicos ou eletrônicos, não reside apenas na força bruta de acumular o passado, mas na elegância precisa do Esquicistor: saber o momento exato de deixar o tempo apagar o que já cumpriu o seu papel, ecoando a eterna lição de Iván Izquierdo de que é preciso saber esquecer para poder avançar.

 

 


Princípio de funcionamento da junção túnel antiferroelétrica (AFTJ): 
Créditos: Imagem: Taegyu Kwon et al. - 10.1002/advs.76692] 
(**) 1 femtojoule = 10-15  joules

 

Fontes:
https://advanced.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/advs.76692 

https://www.newtoncbraga.com.br/como-funciona/10525-como-funcionam-as-memorias-art2437.html#gsc.tab=0

 


Este endereço de e-mail está sendo protegido de spambots. Você precisa habilitar o JavaScript para visualizá-lo. 

Luiza Campos é estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Campus Frederico Westphalen, Brasil. Movida pela curiosidade, está sempre atenta às novidades e às transformações no mundo das diversas comunicações, mantendo sempre o compromisso do jornalismo com a verdade.

NO YOUTUBE