Conforme já comentamos em nossa live na última sexta-feira, 31 de julho, nós nunca estivemos sozinhos no universo. A verdadeira questão que mobiliza a comunidade científica e os entusiastas da exploração espacial não é mais se existe vida fora da Terra, mas sim onde ela está e o que são essas vidas.
Por décadas, a ideia de encontrar organismos ou civilizações além da Terra habitou o imaginário popular através da ficção científica. No entanto, o avanço da astrobiologia, da radioastronomia e da física teórica transformou o que antes era especulação teórica em uma das frentes mais rigorosas e ativas da ciência moderna.
A pergunta sobre a nossa solidão no cosmos passou por uma mudança metodológica profunda: não dependemos mais apenas de estimativas probabilísticas teóricas, como a Equação de Drake, que funciona como um guia de reflexão para ponderar desde a formação de estrelas até o tempo de vida de uma civilização.
O Sistema Mais Próximo
Quando nos perguntamos onde essa vida pode estar, o primeiro olhar da astronomia se volta para o nosso "vizinho" planetário. Localizado a cerca de 4,37 anos-luz de distância, o sistema triplo de Alpha Centauri (que inclui Alpha Centauri A, B e a anã vermelha Proxima Centauri) representa o laboratório ideal para a busca por exoplanetas em zonas habitáveis.
Por ser o sistema estelar mais próximo do nosso Sol, Alpha Centauri é o principal candidato não apenas para a observação direta de atmosferas planetárias em busca de bioassinaturas, mas também para os primeiros projetos de exploração interestelar humana, como iniciativas de microssondas impulsionadas por laser.
O Que Encontrar?
Quando os cientistas abordam a existência de vida fora do nosso planeta, a investigação se divide em diferentes níveis de complexidade biológica e tecnológica. Por um lado, busca-se a vida microbiana e extremófila, considerada a forma mais provável e abundante no cosmos, com organismos capazes de sobreviver em condições extremas de pressão, temperatura e radiação.
Estes são os principais alvos de busca no nosso próprio Sistema Solar, onde corpos celestes como as luas de Júpiter, que abrigam vastos oceanos de água líquida sob crostas espessas de gelo, são apontados como verdadeiros laboratórios vivos para a astrobiologia. Por outro lado, para além dos micróbios extremófilos, a ciência pesquisa tecnoassinaturas e civilizações avançadas, identificando vestígios de tecnologias intencionais ou involuntárias produzidas por outras espécies, que variam desde emissões de rádio e laser até alterações químicas artificiais detectáveis nas atmosferas de exoplanetas.
A busca por inteligência extraterrestre, conhecida historicamente pela sigla SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence ou Busca por Inteligência Extraterrestre), passou por uma reformulação técnica expressiva. Durante anos, os esforços de escuta focaram em faixas de frequência muito específicas, como o tradicional "buraco da água" na faixa de rádio. Hoje, os astrônomos expandiram drasticamente esse espectro. A procura agora avança sobre frequências milimétricas e submilimétricas, aproveitando volumes massivos de dados de arquivo de grandes observatórios internacionais, como o complexo de radiotelescópios ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array).
Da Física Teórica aos Atalhos Cósmicos
Se a vida inteligente existe e conseguiu superar as barreiras de tempo e distância impostas pela velocidade da luz, a questão sobre como ela se desloca ou se comunica pelo cosmos encontra respaldo na física teórica através dos buracos de minhoca (wormholes). Previstos matematicamente pela Relatividade Geral de Einstein como pontes que dobram o espaço-tempo, essas estruturas trazem implicações práticas para a astrobiologia.
Por um lado, uma civilização altamente avançada poderia, utilizar ou manipular essas dobras para percorrer grandes distâncias, como a que nos separa de Alpha Centauri, em instantes. Por outro lado, a física contemporânea já investiga se a presença ou criação artificial de um buraco de minhoca geraria uma assinatura energética distinta, como emissões específicas de radiação ou ondas gravitacionais, constituindo um tipo extremo de tecnoassinatura que nossos instrumentos poderiam tentar detectar.

Onde ela está? O filtro dos modelos galácticos
Para responder onde essas vidas podem estar e organizar essa busca imensa, a astronomia moderna utiliza modelos estatísticos refinados, como o Modelo Galáctico de Besançon. Esse tipo de mapeamento cruza dados populacionais de estrelas com limites estatísticos para determinar a prevalência de possíveis transmissores no espaço.
Com essas ferramentas, a ciência consegue restringir os alvos, evitando "procurar uma agulha em um palheiro" sem direção. Ao mapear com precisão a densidade e a idade das estrelas da nossa galáxia, os pesquisadores estabelecem quais regiões possuem maior probabilidade de abrigar sistemas planetários maduros o suficiente para o desenvolvimento da vida e da tecnologia.
Seja analisando atmosferas no sistema Alpha Centauri, escutando frequências submilimétricas com o ALMA ou investigando os limites teóricos dos buracos de minhoca, o cenário atual da exploração espacial demonstra que a ausência de um sinal definitivo até hoje não é evidência de ausência de vida, mas sim um reflexo de quão pouco do universo tínhamos capacidade de escutar. Com os novos métodos de análise de dados e a expansão das frequências observadas, a grande escuta do cosmos está apenas começando.

Umas das antenas (DV-59) do ALMA em primeiro plano, com várias outras observando o céu em frequências de rádio.
Créditos - ALMA/Alex Pérez
Fontes
Newton C. Braga fala de astronomia e vidas extraterrenas
https://www.youtube.com/watch?v=3UwEJPGujYA
Artigo original
https://academic.oup.com/mnras/article/545/3/staf2112/8346018
Artigo do site:
Eletrônica em busca dos ETs
https://www.newtoncbraga.com.br/eletronica-paranormal/1991-pn011.html

Luiza Campos é estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Campus Frederico Westphalen, Brasil. Movida pela curiosidade, está sempre atenta às novidades e às transformações no mundo das diversas comunicações, mantendo sempre o compromisso do jornalismo com a verdade.















