O SCR ou Diodo Controlado de Silício é um dos componentes mais populares nas aplicações em que se deseja o controle de cargas de potências elevadas. Funcionando como um interruptor acionado eletronicamente ele facilmente supera seus equivalentes mecânicos, por sua velocidade, sensibilidade e capacidade de operar com correntes e tensões elevadas. Não há limite para o número de aplicações eletrônicas em que ele pode ser usado o que torna muito importante para todos conhecer um pouco de seu princípio de funcionamento, suas limitações e suas aplicações. Neste artigo falamos de tudo isso. 

Partindo da estrutura do SCR e de seu princípio de funcionamento vemos também os tipos e a maneira como são fabricados, chegando finalmente as suas aplicações práticas. Acreditamos que nossos leitores poderão aproveitar muito com o que explicamos a seguir, aprendendo a usar muito melhor este componente.

 

Obs. Este é um dos diversos artigos que publicamos ensinando como funciona um SCR. A abordagem varia levemente ao longo dos anos em que saíram os artigos. Esta versão é de 1979.

 

Os SCRs ou diodos controlados de silício podem funcionar como elementos de disparo de circuitos eletrônicos, como relês de estado sólido, como osciladores de alta potência, como controles de potências em circuitos de corrente alternada e em uma infinidade de aplicações em que outros semicondutores tais como transistores e diodos comuns não podem ser usados.

Por que tudo isso?

Os SCRs tem uma estrutura tal que manifesta propriedades elétricas que permitem que ele seja usado em todas estas aplicações. Assim, de modo inicial podemos dizer que o que diferencia um SCR de outros componentes comuns tais como diodos retificadores comuns, e transistores é a sua estrutura que lhe confere propriedades bem definidas das quais passamos a falar a seguir.

 

 

O QUE É UM SCR

Se tivermos dois pedaços de materiais semicondutores unidos, um do tipo P e outro do tipo N de modo que entre eles haja uma junção, a estrutura assim formada manifestará propriedades bem definidas que caracterizam o que denominamos diodo semicondutor.

Esta estrutura se comporta no sentido de conduzir a corrente intensamente quando polarizada no sentido direto e não conduzir praticamente a corrente oferecendo lhe uma resistência muito alta, quando polarizada no sentido inverso (figura 1).

 

Figura 1 – O diodo
Figura 1 – O diodo | Clique na imagem para ampliar |

 

 

Na figura 2 representamos as propriedades elétricas manifestadas por esta estrutura pelo que chamamos de curva característica do diodo.

 

Figura 2- Característica do diodo
Figura 2- Característica do diodo | Clique na imagem para ampliar |

 

 

Vemos que na região de polarização direta o diodo a partir de determinada tensão manifesta resistências muito baixas conduzindo intensamente a corrente, enquanto que na região de polarização inversa o diodo manifesta resistências muito altas não conduzindo praticamente a corrente até o instante em que é atingida a tensão de ruptura inversa do diodo ou tensão zener.

Neste momento o diodo também conduz a corrente no sentido inverso, mas para os diodos comuns isso acarreta sua destruição.

Estas características de conduzir a corrente num sentido e bloquear em outro, de ter certos valores limites tanto para a circulação da Corrente no sentido direto como no inverso é que determinam as aplicações dos diodos semicondutores na prática.

Existem portanto muitos tipos de diodos que tem estruturas estudadas de modo a aumentar os limites dados por estas características visando assim aplicações específicas (figura 3).

 

Figura 3 – Tipos de diodos
Figura 3 – Tipos de diodos | Clique na imagem para ampliar |

 

 

Os diodos retificadores, por exemplo, devem ter superfícies de junção maiores que os diodos detectores já que devem suportar correntes maiores, etc.

O próximo componente a ter sua estrutura analisada é o transistor.

O transistor é formado por três pedaços de materiais semicondutores de tipos diferentes alternados de modo a termos duas junções, conforme mostra a figura 4.

 

Figura 4 – O transistor
Figura 4 – O transistor | Clique na imagem para ampliar |

 

 

Esta estrutura apresenta propriedades elétricas bem definidas que podem ser dadas por uma família de curvas conforme o indicado na figura 5.

 

 

Figura 5 – Família de curvas de um transistor
Figura 5 – Família de curvas de um transistor | Clique na imagem para ampliar |

 

 

Para determinados valores da corrente de base, temos correntes definidas de coletor em função da tensão neste mesmo elemento.

Estas características permitem que o transistor seja usado como dispositivo amplificador de sinais, já que uma pequena corrente aplicada a sua base fará circular uma corrente mais intensa em seu coletor. Variações da corrente de base podem portanto ser traduzidas por variações maiores da corrente de coletor.

Partindo então de um componente de 3 camadas de materiais semicondutores chegamos ao componente de 4 camadas que é justamente o SCR.

O SCR se enquadra portanto na família dos dispositivos denominados Tiristores, ou seja, dispositivos destinados a comutação de alta velocidade.

Na figura 6 temos então a estrutura de um SCR (diodo controlado de silício) em que 4 pedaços de materiais semicondutores formam uma estrutura de 4 camadas, de onde vem a denominação algumas vezes dada a estes dispositivos de “diodos de 4 camadas".

 

Figura 6 – Estrutura do SCR
Figura 6 – Estrutura do SCR | Clique na imagem para ampliar |

 

 

Na figura 7 temos o símbolo adotado para representar um SCR assim como a curva característica que o mesmo apresenta e por onde podemos analisar seu funcionamento.

 

Figura 7 – SCR símbolo e curvas
Figura 7 – SCR símbolo e curvas | Clique na imagem para ampliar |

 

 

As quatro camadas de materiais semicondutores que formam a estrutura do diodo controlado de silício equivalem na realidade a dois transistores, um PNP e outro NPN ligados de tal modo a formar uma chave regenerativa.

Como o princípio de funcionamento dos transistores é mais conhecido de nossos leitores podemos partir deste circuito equivalente mostrado na figura 8 para explicar o princípio de funcionamento do SCR.

 

Figura 8 – A chave regenerativa
Figura 8 – A chave regenerativa | Clique na imagem para ampliar |

 

 

Como neste primeiro item estamos vendo apenas o que é um SCR, terminamos completando que o SCR é então no fundo um retificador, ou seja, um diodo, mas que possui um eletrodo a mais que permite que acorrente retificada seja controlada externamente.

Muito mais que um diodo o SCR é portanto um dispositivo de comutação, porque pode ser ligado ou desligado rapidamente a partir de sinais externos aplicados de maneira apropriada conforme veremos a seguir.

 

 

COMO FUNCIONAM OS SCRs

Conforme vimos no item anterior a estrutura do SCR se compara a de dois transistores ligados de modo a formar uma chave regenerativa. Veja o leitor que, se na realidade o SCR equivale a dois transistores porque representá-lo por um símbolo que muito mais nos lembra um diodo?

O fato é que na realidade as características de condução obtidas com esta estrutura lembra muito mais os diodos do que propriamente os transistores. Em suma, mesmo podendo ter seu funcionamento equivalente ao de dois transistores, as características lembram muito mais os diodos comuns.

Conforme o leitor pode ver o SCR possui três terminais que recebem denominações específicas:

A para o anodo

C ou K para o catodo

G para a comporta ou “gate"

Na estrutura equivalente formada por transistores, o anodo corresponde ao emissor do primeiro transistor que é um do tipo PNP, o catodo corresponde ao emissor do segundo transistor que é um do tipo NPN enquanto que a comporta corresponde à base do segundo transistor.

A base do primeiro transistor está ligada ao coletor do segundo, enquanto que a base do segundo transistor está ligada ao coletor do primeiro.

O funcionamento deste circuito pode então ser explicado da seguinte maneira: (figura 9)

 

Figura 9 – As estruturas equivalentes
Figura 9 – As estruturas equivalentes | Clique na imagem para ampliar |

 

 

- Ligando inicialmente a alimentação do circuito de modo que uma tensão positiva em relação ao catodo seja aplicada ao anodo, o SCR se comporta como um circuito aberto, não havendo condução apreciável de corrente, a não ser uma pequena fuga que normalmente ocorre nestes componentes.

Uma pequena corrente que pode ser considerada desprezível circula entre a base do primeiro transistor (Q1) e o coletor do segundo (Q2) ao mesmo tempo em que uma pequena corrente circula entre a base do segundo transistor (Q2) e o coletor do primeiro. O resultado é que a corrente entre o anodo e o catodo do SCR não pode ser considerada como existente para efeitos práticos.

O SCR estará desligado. Uma lâmpada ligada em série com o SCR nestas condições permanecerá apagada, conforme sugere a figura 10.

 

Figura 10 – Controlando uma lâmpada
Figura 10 – Controlando uma lâmpada | Clique na imagem para ampliar |

 

 

- Se agora for estabelecida uma pequena tensão positiva em relação ao catodo na comporta do SCR, fazendo com que uma corrente pequena circule entre a base do segundo transistor (Q2) e seu emissor, o SCR mudará de estado.

Polarizando a junção deste transistor Q2 no sentido direto de condução (junção emissor-base) o transistor terá também sua corrente de coletor aumentada numa proporção que depende do ganho deste mesmo transistor.

Lembramos que a corrente de coletor será tantas vezes maior que a corrente de base quanto for o ganho do transistor. Ora, a corrente de coletor do segundo transistor (Q2) é justamente uma corrente que circula num sentido que polariza a junção emissor-base do primeiro transistor no sentido de, também fazê-lo conduzir.

Esta corrente de base consequentemente no primeiro transistor aumenta a corrente de coletor do primeiro transistor (figura 11).

 

Figura 11 – As correntes na estrutura equivalente
Figura 11 – As correntes na estrutura equivalente | Clique na imagem para ampliar |

 

 

Mas, a corrente de coletor do primeiro transistor é justamente a corrente de base do segundo, o que significa que agora volta o primeiro transistor a ser excitado num efeito de realimentação ou regeneração.

Isso significa que mesmo que a pequena corrente que tenha dado início ao processo ao ser aplicada na base do segundo transistor, tenha desaparecido, ela já terá dado início ao processo de realimentação que leva tanto um como outro transistor a terem suas correntes de coletor aumentadas numa proporção que mantém ambos conduzindo intensamente a corrente.

Assim, tanto um como outro transistor conduzindo a corrente, haverá a circulação de uma forte corrente principal pelo SCR que pode alimentar o circuito de carga. O SCR terá sido “ligado".

Veja o leitor que basta uma pequena corrente para dar início ao processo para que o SCR comute para o seu estado de plena condução e assim continua mesmo depois de cessada a corrente de comporta inicial.

Veja também o leitor os sentidos de circulação de todas as correntes:

A corrente de disparo deve circular no sentido da comporta para o catodo, vencendo no caso apenas a barreira de potencial existente numa única junção. Isso significa que para os SCRs comuns, a tensão que se precisa para vencer esta barreira de potencial é da ordem de 0,2 à 0,6 V e que a corrente mínima que deve circular nestas condições dependerá do ganho dos transistores ”equivalentes" o que está diretamente condicionado ao tipo de SCR e à sua corrente máxima.

Tipos como o MCR106, IR106, que são considerados SCRs de grande sensibilidade precisam de apenas 10 à 50 uA para serem disparados, enquanto que outros SCRs de menores sensibilidades precisam de correntes da ordem de 10 à 50 mA para serem disparados.

A corrente principal, que é a corrente que controla o circuito de carga circula do anodo para o catodo, o que nos leva a observar que os SCRs são dispositivos unilaterais ou seja, conduzem a corrente num único sentido.

Como a corrente que circula pelo SCR tem de vencer 3 junções semicondutores para ir do anodo para o catodo ocorre uma pequena queda de tensão neste componente que tem um valor típico entre 1 e 2 volts.

Esta queda de tensão no SCR multiplicada pela intensidade da corrente que ele controla nos dá a potência que o mesmo deverá dissipar em forma de calor.

Considerando-se, no entanto, que as correntes normalmente são grandes e que as tensões são muito maiores nas aplicações práticas, da ordem de 110 ou 220 V, a potência perdida num SCR é extremamente pequena.

Por exemplo, no controle de uma carga de 440 Watts numa rede de 110 V com um SCR comum em que a circulação de corrente será da ordem de 4 A, no SCR a potência dissipada estará entre apenas 4 e 8 Watts o que pode ser facilmente dissipado com um pequeno radiador (figura 12).

 

Figura 12 – Radiador para o SCR
Figura 12 – Radiador para o SCR | Clique na imagem para ampliar |

 

 

Um ponto importante que deve ser levado ao conhecimento dos leitores é que o equivalente transistorizado do SCR não pode funcionar na prática em vista de suas limitações de corrente.

Veja que a corrente principal que circula pelo SCR é formada pela soma de duas correntes de base, e nos transistores comuns esta corrente está limitada a valores muito baixos. Isso quer dizer que se fizermos um SCR improvisado usando dois transistores, a capacidade de corrente deste SCR não será dada pela corrente máxima que cada um pode permitir circulando por seus coletores, mas sim pela sua corrente máxima de base que em geral é muito menor.

Os SCRs são estruturados justamente de modo a admitir elevadas correntes principais que podem ir desde fração de ampère até mais de 1 000 ampères para os tipos industriais, de grandes dimensões conforme mostramos na figura 13.

 

Figura 13 – SCR de altíssima corrente
Figura 13 – SCR de altíssima corrente | Clique na imagem para ampliar |

 

 

c) Voltando ao nosso SCR disparado que agora conduz intensamente a corrente mesmo depois de desaparecer o sinal de excitação temos um problema a ser analisado: como desligá-lo?

Temos aqui diversas possibilidades que serão analisadas sempre levando em conta o equivalente "transistorizado" deste componente.

Uma vez que o SCR tenha sido disparado, ocorre uma realimentação interna no mesmo, conforme vemos, que mantém a corrente máxima entre seu anodo e seu catodo, mesmo depois de desaparecida a corrente inicial de disparo pela comporta.

Para que a realimentação ocorra numa intensidade que mantenha o SCR em plena condução e preciso no entanto que a corrente principal tenha um valor mínimo, denominado "corrente de manutenção".

Se a corrente principal cair abaixo deste valor, a realimentação não mais será suficiente para manter o SCR em plena condução e ele desligará.

Para um SCR da série 106 esta corrente de manutenção (IH) tem seu valor típico entre 5 e 8 mA o que significa que esta é a corrente mínima que o circuito de carga deve “puxar" para que to SCR funcione apropriadamente. (figura 14).

 

Figura 14 – Característica do SCR
Figura 14 – Característica do SCR | Clique na imagem para ampliar |

 

 

Um dos meios que se tem para desligar um SCR então é reduzir a corrente principal até que ela caia abaixo do valor indicado, quando ele então comuta para o esta- do de não condução.

Uma outra maneira de se fazer o SCR desligar consiste em reduzir a zero momentaneamente a tensão entre o anodo e o catodo de modo que a corrente principal caindo abaixo do valor de manutenção venha provocar o desligamento do semicondutor levando-o ao seu estado de não condução.

Isso pode ser feito de diversas maneiras como, por exemplo, por meio de um interruptor de pressão do tipo normalmente aberto ligado em paralelo com o SCR curtocircuitando momentaneamente, ou então por meio de um interruptor de pressão do tipo normalmente fechado ligado em série com a alimentação, desligando-o momentaneamente. (figura 15)

 

Figura 15 – Desligando o SCR
Figura 15 – Desligando o SCR | Clique na imagem para ampliar |

 

 

É claro que, este processo de “desligar" o SCR só é necessário nos casos da corrente principal ser contínua pura. Se esta corrente for contínua pulsante o que acontece quando o mesmo é alimentado pela rede de corrente alternada e só ocorre a condução dos semiciclos num sentido, existem os instantes entre dois semiciclos sucessivos em que automaticamente a tensão e, portanto, a corrente cai a zero, conforme mostra a figura 16.

 

Figura 16 – No circuito de corrente alternada
Figura 16 – No circuito de corrente alternada | Clique na imagem para ampliar |

 

 

Nesta figura vemos que tanto no caso da alimentação direta do SCR por corrente alternada em que um dos semiciclos é totalmente cortado, como no caso da retificação por onda completa, em que os dois semiciclos estão presentes porém forçando a circulação da corrente no mesmo sentido, existem os instantes em que a tensão se anula e que portanto o SCR, se estiver conduzindo, desliga.

Podemos então disparar um SCR em qualquer ponto de um semiciclo da alimentação e ele automaticamente desligará no final deste semiciclo quando a tensão entre seu anodo e seu catodo cair a zero.

Este comportamento do SCR nos circuitos de corrente alternada tornam-no ideal para as aplicações em que ele atua como controle de potência.

Na sua comporta é ligado então um circuito de retardo, normalmente um resistor e um capacitor de tal modo que a tensão de disparo na sua comporta só atinge o valor necessário ao disparo do SCR depois de decorrido algum tempo após o inicio de um semiciclo.

Isso quer dizer que podemos retardar o disparo do SCR para que ele ocorra em qualquer ponto desejado do semiciclo de alimentação. Se o disparo ocorrer no início do semiciclo, este será totalmente conduzido pelo SCR e consequentemente pelo circuito de carga que então funcionará com sua potência máxima.

Se o SCR for disparado no final do semiciclo só haverá tempo para que uma pequena parcela do mesmo seja conduzida a consequentemente a carga receberá o mínimo de potência. (figura 17)

 

Figura 17 – Disparo em pontos diferentes do semiciclo
Figura 17 – Disparo em pontos diferentes do semiciclo | Clique na imagem para ampliar |

 

 

Usando um resistor variável e um capacitor de valor fixo pode-se controlar a potência aplicada no circuito de carga entre um valor mínimo que se aproxima de o até um valor máximo que se situa perto de 48% para os circuitos de meia onda e 95% para os circuitos de onda completa.

Dispositivos de comutação rápida ligados no circuito de disparo ajudam o SCR a disparar nos instantes exatos desejados melhorando com isso o funcionamento dos controles. Dos dispositivos mais comuns usados com esta finalidade citamos os SUS (Silicon Unilateral Switch) cujo aspecto e símbolo é mostrado na figura 18.

 

Figura 18 – O SUS
Figura 18 – O SUS

 

 

Este semicondutor dispara somente quando a tensão no capacitor atinge cerca de 7,8 V de modo que, com este valor de tensão mais alta aplicada à comporta do SCR, seu disparo possa ocorrer numa velocidade maior.

É claro que o SCR não tem só suas vantagens. Na realidade, alguns problemas que ocorrem quando muitos usam SCRs e estes não funcionam como se deve são justamente causados por algumas ”deficiências" naturais que este, como qualquer outro componente eletrônico possui.

Uma das “deficiências" que pode ser citada é a pequena capacitância que existe entre as junções do SCR, ou seja, suas 4 camadas que permite que pulsos de alta tensão ou transientes de curta duração que apareçam entre o anodo e o catodo possam chegar até o eletrodo de comporta com intensidade suficiente para provocar seu disparo.

Este problema, no entanto, pode ser normalmente eliminado pela ligação entre o anodo e o catodo do SCR, conforme mostra a figura 19 de um resistor e de um capacitor de valor apropriados.

 

Figura 19 – O snubber
Figura 19 – O snubber | Clique na imagem para ampliar |

 

 

Outro problema que deve ser levado em conta é que, o SCR não precisa ser obrigatoriamente disparado por um sinal em sua comporta. Se esta for devidamente polarizada de modo que, com uma determinada tensão entre o anodo e o catodo a corrente de comporta fique no limiar do disparo, ou seja, um pouco abaixo do necessário para que isso ocorra, quando houver um pequeno acréscimo na tensão de anodo, o SCR será levado à sua plena condução.

O que ocorre no caso é que, aumentando a tensão de anodo automaticamente aumenta a corrente de fuga que então se soma à corrente de disparo do componente levando-o à condução, conforme ilustra a figura 20.

 

Figura 20 – Disparo pelo aumento da tensão de anodo
Figura 20 – Disparo pelo aumento da tensão de anodo | Clique na imagem para ampliar |

 

 

Este método de disparo pode ser útil para fazer o SCR "oscilar" numa configuração muito semelhante ao conhecido oscilador de relaxação com lâmpada neon.

Na figura 21 temos um circuito que o leitor pode realizar experimentalmente usando um MCR106.

 

Figura 21 – Oscilador com SCR
Figura 21 – Oscilador com SCR | Clique na imagem para ampliar |

 

 

Quando o capacitor se carrega através do resistor, a tensão de anodo no SCR aumenta até o ponto em que ela atinge um valor suficiente para provocar o disparo do mesmo. Este ponto de disparo é justamente determinado pela polarização de sua comporta.

Utilizando um resistor variável na comporta podemos portanto ajustá-lo de modo a influir na frequência deste interessante oscilador com SCR.

Em vista do que analisamos verificamos que os SCRs têm condições bem definidas de trabalho as quais devem ser obedecidas em qualquer uma de suas aplicações práticas. Desrespeitar qualquer uma de suas condições limites implicará não só no não funcionamento do circuito como também na própria queima dos componentes envolvidos.

O primeiro ponto a ser analisado no uso de um SCR refere-se à polaridade das tensões que nele sejam aplicadas e consequentemente nos sentidos de circulação das correntes em seus eletrodos.

Na figura 22 temos então os sinais das tensões que devem ser aplicadas no SCR para que se obtenha o seu disparo e a condução plena.

 

Figura 22 – Sinais das tensões de disparo
Figura 22 – Sinais das tensões de disparo | Clique na imagem para ampliar |

 

 

Aqui o leitor deve tomar o seguinte cuidado para não causar a queima do seu SCR.

Para disparar o SCR é preciso que o anodo esteja positivo em relação ao catodo, e que o sinal de disparo tenha uma tensão mínima de acordo com as especificações deste componente, positiva em relação ao catodo e que force a circulação da corrente mínima que realimentando os “transistores" equivalentes levem-nos à comutação.

Se o anodo estiver negativo em relação ao catodo, o que pode ocorrer em metade dos semiciclos da alimentação de corrente alternada, o SCR não conduzirá já que, como vimos trata-se de um dispositivo unilateral, ou seja, em que a corrente circula num único sentido.

No entanto, o SCR no instante em que estiver com o anodo negativo em relação ao catodo não pode ser forçado a disparar, pois se nestas condições lhe for aplicado um pulso de disparo também negativo, o que acontecerá será uma ruptura das junções do semicondutor que então se queimará.

Assim, como regra importante para o uso de um SCR está a de nunca se aplicar um pulso negativo na comporta do mesmo quando o anodo se encontrar negativo em relação ao catodo, ou seja, quando ele estiver polarizado inversamente; (figura 23).

 

Figura 23 – Condição de queima
Figura 23 – Condição de queima | Clique na imagem para ampliar |

 

 

Como meio de evitar que isso aconteça acidentalmente ou mesmo em vista do principio de funcionamento do circuito, costuma-se ligar na comporta do SCR um diodo comum de tal modo que só pulsos positivos de disparo possam ser levados ao mesmo, evitando-se com isso sua possível queima nas condições indicadas.

O diodo aparecerá, portanto, na comporta do SCR quase que obrigatoriamente nos circuitos de corrente alternada (figura 24).

 

Figura 24 – O diodo de comporta
Figura 24 – O diodo de comporta | Clique na imagem para ampliar |

 

 

O segundo ponto a ser analisado refere-se às especificações dos SCRs que indicam suas condições mínimas e máximas de funcionamento. Vejamos como interpretar os manuais e saber o que estas especificações significam:

O primeiro valor importante é o da tensão máxima que pode aparecer entre o anodo e o catodo do SCR quando ele se encontra desligado. Este valor é dado pela sigla VDRM e pode ser analisado da seguinte maneira: trata-se da tensão máxima do circuito em que o SCR operar.

Nos circuitos de corrente alternada, deve-se sempre cuidar para que esta tensão seja superior ao valor do pico da rede. Por exemplo, na rede de 110 V em que temos uma tensão de pico de aproximadamente 150 V devemos usar um SCR com um Von de 200 V.

Se a tensão superar este valor, mesmo que por um curto intervalo de tempo, como ocorre no caso de um transiente, o SCR conduzirá a corrente, disparando.

Este valor limita, portanto, a tensão de alimentação do circuito em que o SCR deve ser usado, ou em linguagem mais simples significa “quanto aguenta de tensão o SCR".

A próxima especificação importante do SCR é a sua corrente máxima no sentido direto (ID) que é justamente a máxima corrente que o SCR pode conduzir para o circuito de carga quando for ligado.

Nos circuitos de corrente contínua em que temos uma corrente deste tipo seu valor é dado em termos diretos, mas nos circuitos de corrente alternada deve-se sempre considerar o valor RMS.

Na escolha de um SCR para uma aplicação prática deve-se certificar-se de que ele suporta a corrente que a carga exige.

Temos a seguir a corrente que dispara o SCR que é indicada pela sigla IGT.

Esta deve ser a corrente que circula entre a comporta do SCR e seu catodo que faz o SCR disparar. Por esta corrente podemos ver a "sensibilidade" do SCR, ou seja, quanto menor for esta corrente, mais sensível ao disparo é o SCR. Para o TlC106, C106, MCR106, por exemplo esta corrente está na faixa dos 20 aos 600 uA.

Temos a seguir a tensão de comporta dada por VGT que é a tensão que deve ser estabelecida entre a comporta e o catodo para fazer circular a corrente de disparo.

Esta corrente é normalmente situada entre 0,2 e 1,2 V qualquer que seja o SCR considerado.

Finalmente temos a corrente de manutenção IH que é a menor corrente que o SCR pode controlar sem desligar, conforme já foi explicado.

Uma vez que todas as especificações seja obedecidas, o SCR deve funcionar por muito tempo antes de causar qualquer tipo de problema.

 

 

 

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