Novas formas de gerar energia têm sido apresentadas ao mundo constantemente, algumas bastante curiosas. No entanto, tão importantes quando as formas de gerar energia são as formas de armazená-la. Baterias, supercapacitores e outras têm sido constantemente aperfeiçoadas. O assunto em alta também foi alvo das atenções do Professor Ventura, Beto e Cleto. Na verdade, foi muito além do que os três esperavam tornando-se um assunto de discussão nacional quando partindo de uma simples aposta sobre uma ideia inovadora, propagando-se pelo mundo como uma onda de choque tecnológica. Veja em mais esta aventura do Professor Ventura, Beto e Cleto como se descobriu um modo de ser armazenar energia num buraco.

 


 

As discussões tecnológicas do Professor Ventura, Beto e Cleto sempre foram muito interessantes e, eventualmente, acaloradas. Levando em conta princípios da física e a disponibilidade de recursos reais, nunca se tratou de alguma coisa que não tivesse uma fundamentação científica sólida e que eventualmente pudesse ser explorada pela ciência e pela tecnologia. Desta vez, entretanto, parece que a discussão tinha ido longe demais:

- Sim, eu digo que podemos armazenar energia em praticamente qualquer coisa. – Insistia o Professor Ventura, diante de seus dois alunos, sentados no velho sofá no canto do laboratório.

- Uma mola contraída, o campo elétrico entre as placas de um supercapacitor, uma represa contendo uma grande quantidade de água e até mesmo um buraco. Tudo depende de sabermos como manusear a energia.

Beto se assustou com a resposta.

- Um buraco negro, o Sr. quer dizer.

O professor não se abalou.

- Não, um buraco comum. Desses que a gente faz com uma pá e uma enxada.

Cleto, que até então só observava, se assustou.

- Impossível! Como guardar energia num buraco. Vamos contrair o vazio como uma mola para que ele adquira energia... – Beto continuou:

- E, depois fazer o buraco expandir para liberar a energia. Energia negativa, certamente.

O professor, que aguardou a conclusão dos dois alunos, continuou.

- Vocês sabem que eu não digo coisas que não tenham uma fundamentação científica. O que estou dizendo é perfeitamente possível. Podemos armazenar energia num buraco, e não precisamos muito para fazer isso assim como para recuperar a energia armazenada. Indo além, acho que é algo para ser explorado.

Incrédulos, os dois estudantes questionaram mais uma vez o velho professor:

- Impossível! Como armazenar energia num buraco? Não tem fundamentação científica.

Percebendo que os alunos não estavam acreditando nas suas palavras ele fez uma proposta interessante:

- Vamos apostar! Aposto uma rodada de sorvete na sorveteria da praça que é possível armazenar energia num buraco, sem violar qualquer princípio da física, principalmente o da conservação da energia.

- Apostado! Explique.

O professor levantou as mãos e completou:

- Calma, não vou dar a vocês a chance de ter a solução agora. Quero ver vocês quebrarem a cabeça para provar que estou errado. Vou dar um tempo para que vocês pensem na possibilidade de fazer isso. Vamos combinar! Hoje é segunda feira. Vocês têm até sábado para pensar no assunto e imaginarem vocês uma solução. Afinal vocês são “makers” e um maker tem de estar preparado para resolver os mais complicados desafios da tecnologia (e da ciência).

Beto e Cleto perceberam que não deveriam ter desafiado o professor.

- Se não me apresentarem uma solução para o problema e eu conseguir provar que é possível “guardar” energia num buraco, vocês pagam duas rodadas de sorvetes. Se me apresentarem uma solução consistente, eu pago uma rodada, e se eu não apresentar uma solução consistente, eu é que pago duas rodadas de sorvetes.

- Feito!

A aposta estava feita. Combinaram que no sábado eles deveriam se reunir no laboratório do professor, na Escola Técnica, e ele deveria explicar como funcionaria seu sistema de “armazenamento de energia num buraco”.

- Enterrando uns frascos de “energético”. – Imaginou Cleto, numa última tentativa de pensar como poderia ser feito.

As regras eram simples: deveria ter consistência científica e ser totalmente viável de construir sem custo exorbitantes, com a tecnologia disponível em nossos dias. A energia não precisaria ser obrigatoriamente elétrica, pois nenhuma das formas que temos hoje faz isso. Baterias armazenam energia transferindo-a para substâncias químicas, capacitores armazenam na forma de campos elétricos e molas, armazenam energia mecânica quando contraídas. Buracos, armazenam energia na forma... Bem, era isso que o professor deveria explicar.

No caminho de casa Beto e Cleto já começavam a discutir o problema.

- Tá certo que o professor tem muita imaginação, mas acho que foi longe demais. Como armazenar energia num buraco? – Cleto não acreditava numa solução.

- Contrair um buraco aplicando energia e depois recuperá-la com sua expansão? Aproveitar a diferença da energia entre um buraco vazio e um cheio? Não! Se fosse um buraco negro, talvez os astrofísicos tivessem explicações. – Beto analisava o problema.

- Entropía? Como calcular a entropia de um buraco vazio e de um buraco cheio? – Cleto, que era um bom aluno de física e química lembrava de alguns ensinamentos do nível médio.

- Vou dar uma olhada nos meus livros de física. Talvez tenha alguma ideia.

Os dois continuaram o caminho juntos até o ponto em que se separaram, indo cada um para sua casa. No entanto, o assunto continuou “martelando” em suas cabeças. Combinaram que no dia seguinte, voltariam cedo ao laboratório para continuar discutindo e eventualmente tirar alguma informação do professor Ventura que lhes desse uma pista. No que estaria pensando o velho professor?

No dia seguinte pela manhã, depois de se encontrarem no local de sempre, os dois amigos seguiram para a escola. Iriam para o laboratório onde certamente o Prof. Ventura já estaria trabalhando em seus experimentos, preparando aulas e escrevendo seus artigos técnicos. No entanto, foi nesse trajeto que um encontro inesperado serviu de gatilho para uma verdadeira explosão de acontecimentos que culminariam com a propagação de um problema que atingiu não apenas a pequena cidade no seu tudo, mas o estado, o país e o mundo.

O que aconteceu? Certamente, em qualquer coisa fora do comum que o Professor Ventura, Beto e Cleto se envolvessem, Epaminondas Portentoso deveria estar presente em algum momento. E foi isso que aconteceu.

(*) Esta é uma das muitas aventuras do Professor Ventura que escrevi. No artigo NVENT000, os que não conhecem os personagens poderão ter uma breve descrição de cada um. Apenas para adiantar, Epaminondas é um baixinho, gordinho de feições engraçadas que toca tuba na banda local. Por razões que só o destino explica, ele se envolve de maneira engraçada nas trabalhadas do professor Ventura. E, não foi dessa vez que ele escapou.

No trajeto para a escola, eis que Beto e Cleto cruzam com o Epaminondas que, carregando sua tuba ia para seu “negócio” na cidade, abrindo cedo as portas de sua barbearia. Levava a tuba, pois depois do expediente a banda tocaria no coreto, e como sempre ele estaria presente.

- Bom dia! – exclamaram os dois jovens.

- Bom dia! – respondeu o músico, mas algo lhe chamou a atenção. Cleto olhava fixamente para a tuba.

Epaminondas percebeu. Mas, sem se abalar perguntou aos dois.

- Já sei! Vão se encontrar com o professor Ventura. Que “raio” de novidade estão planejando agora? Espero que não afete as pessoas.

Beto sabia que não adiantaria entrar em pormenores técnicos, de modo que “inventou” uma resposta simples para agradar o músico, sem entrar em detalhes.

- Nada demais. O professor Ventura está criando um projeto para armazenar energia em buracos.

Não é preciso dizer que o Músico, barbeiro sem formação científica e tecnologia não entendeu nada, mas ficou curioso. Armazenar energia em buracos! Bombardeado com as novidades tecnológicas trazidas pelos seus clientes, que as discutiam enquanto cortavam o cabelo teria um assunto interessante, principalmente porque envolvia uma personalidade controvertida da cidade, como era o Prof. Ventura.

- Ah! Muito interessante.

O músico seguiu seu caminho, assim como Beto e Cleo, mas em dado momento algo ocorreu. Epaminondas percebendo algo estranho, se voltou olhando para trás.

Beto tentava fazer com que Cleto seguisse seu caminho, mas ele não se mexia, encarando intensamente a tuba do Epaminondas. O baixinho se assustou.

- Minha tuba! Tem algo a ver com os experimentos do “maluco” do Professor Ventura. Eles sabem de algo! - Pensou imediatamente o músico.

Ele seguiu então seu caminho, com uma novidade interessante para conversar com seus clientes, mas por outro lado, muito preocupado com sua tuba.

- Energia em buracos e minha tuba! Tem alguma coisa estranha aí.

Beto, finalmente conseguiu trazer Cleto para a real.

- O que houve com você?

- A tuba. Me ocorreu algo que pode ter algo a ver com a ideia do professor Ventura de armazenar energia num buraco.

Beto teve um sobressalto:

- O que?

- Sim. Veja que ela tem um enorme buraco por onde sai o som, e seu formato lembra um turbilhão, como o que se forma num buraco negro. As “energias” podem ser concentradas ali... Tem algo a ver.

Beto interrompeu o amigo:

- Você está indo longe demais. O que tem a ver uma tuba, com o buraco que armazena energia do Professor Ventura e os turbilhões que concentram alta energia dos buracos negros.

- Não sei. Mas existe algo aí. Vou pensar.

O que os dois jovens não sabiam é que a conversa com o Epaminondas não ficaria apenas entre eles. Numa cidade como Brederópolis, as notícias se espalham rapidamente, principalmente quando envolvem coisas estranhas, personalidades locais e um barbeiro que conversa com todo mundo. Foi o que aconteceu.

Epaminondas espalhou a notícia de que o Professor Ventura teria descoberto um modo de armazenar energia em buracos e que certamente ficaria rico com isso. Sim, as coisas quando passam de boca a boca adquirem dimensões crescentes sem se falar na distorção dos fatos e as distorções também ocorreram.

Alguns interpretaram que o Professor Ventura ameaçando o mundo trazendo buracos negros para Brederópolis. Outros disseram que estaria fazendo buracos em toda a cidade para armazenar energia. E, essa acabou ideia acabou indo para o secretário do prefeito que, preocupado, levou a notícia ao “preboste” Saturnino.

- Caramba! O que ele vai fazer desta vez? Vamos impedir que ele abra buracos em nossa cidade, mesmo que seja para armazenar energia. Vou baixar um decreto proibindo.

Não foi a primeira vez, que sem conhecer nada de física e muito menos sobre o que estava ocorrendo, o prefeito tentou interferir em coisas de maneira espalhafatosa. Conta-se que certa vez, quando a cidade resolveu construir um novo reservatório para distribuição de água, os engenheiros propuseram que ele deveria ser instalado no alto da colina ao lado da cidade. O prefeito, orgulhoso da sua primeira grande obra interferiu.

- Não! Tem de ficar na praça. Bem no meio da cidade.

Foi quando um dos engenheiros explicou que não era possível:

- Não, não pode ser, pois é preciso que ela fique em lugar alto, por causa da Lei da Gravidade.

O prefeito sem pestanejar interferiu:

- Não! Vai ficar na praça. Se é por causa da Lei da Gravidade, vamos revogá-la.

Não é preciso dizer que o assunto virou piada. Mas desta vez, mais cauteloso, ele resolveu ir falar diretamente com o Professor Ventura. Dadas as explicações de que se tratava apenas de uma aposta e que nada iria ser construído, nenhum buraco na cidade, o prefeito voltou satisfeito.

Mas a notícia havia se espalhado. E, Epaminondas voltou para casa preocupado.

- Minha tuba! Tem algo a ver com tudo isso. Buracos negros, energia negativa, explosões nucleares! Brrr.

É claro que realmente, as “explicações” dadas sempre tinham algo aumentado. Quem passa uma notícia para outra pessoa, involuntariamente, sempre acrescenta alguma coisa própria e a distorção cresce. O velho ditado:

“Quem conta um conto, aumenta um ponto.”

Epaminondas teve um pesadelo aquela a noite.

Sonhou que o professor Ventura “sequestrou” a sua tuba para os experimentos com o armazenamento de energia. No sonho, o professor ligava em sua tuba dois fios que vinham de uma caixa e a enterrava num enorme buraco. Dois fios ficavam para fora e, ligados a uma lâmpada, faziam com que ela acendesse.

Acordou gritando e suando. Sua esposa teve de acalmá-lo com um copo d’água.

Beto e Cleto, no laboratório do Professor Ventura tentavam obter alguma pista sobre o modo como energia poderia ser armazenada num buraco.

- Dê-nos uma pista!

Sem entrar em detalhes, o professor simplesmente dizia:

- Energia potencial negativa.

- ?

Sem saber que a aposta deles se tornou algo muito importante, Beto e Cleto continuavam a imaginar como poderia ser feito.

Um personagem importante na cidade estava bastante preocupado. Era o psicólogo Romildo Bacamarte. Sim, diziam que era sobrinho de Simeão Bacamarte, mas logo isso era desmentido, pois Simeão Bacamarte era um personagem criado por Machado de Assis em seu conto “O Alienista”. Repentinamente a ficção e a realidade se misturaram e na cidade ninguém mais sabia se Romildo era primo de uma criatura virtual ou real.

- Mas, tem algo a ver. – Comentavam alguns

- Sim, é muita coincidência a profissão e o modo como ele age lembra muito o personagem da estória

De fato, por mais de uma vez, pelos seus experimentos, que às vezes davam errado, ele tinha tentado “internar” o Professor Ventura num sanatório. Desta vez, ele estava apenas observando.

O professor Ventura, Beto e Cleto não se davam conta de que as notícias sobre as “pesquisas” que estavam feitas em seu laboratório estavam tomando uma dimensão preocupante.

Um dos clientes do Epaminondas, com que ele havia comentado as pesquisas para se armazenar energia num buraco, resolveu contatar alguns especialistas em tecnologia com que tinha contato pela Internet, para saber se realmente era possível.

Primeiro foi o Rodolpho do Laboratório de Garagem, que surpreso com o fato, resolveu colocar em seu canal, chamando a atenção de milhares de seguidores. Depois veio o Burgos e o Rambo que também comentaram o assunto. Resultado: o assunto espalhou-se pelo mundo. Todos queriam saber quem era o Professor Ventura que havia descoberto um modo de se armazenar energia num buraco.

Um hacker russo e um hacker chinês ameaçaram invadir a pequena página que o Prof. Ventura tinha na Internet, com a esperança de conseguir os “planos” que certamente revolucionariam o mundo...

Mas, a dúvida persistia. Como ele fazia isso?

Até um especialista em impressoras 3D, o Guilherme Razgrizz ficou imaginando como seria possível imprimir um buraco em 3D para armazenar energia. Outros especialistas estavam pensando em incorporar controles da energia armazenada via internet, transformando assim um buraco em mais uma aplicação da IoT. Não é preciso dizer que a Gedeane, especialista em vestíveis pensou em criar um buraco vestível para fornecer energia para suas aplicações. Onde ficaria o buraco, ela não explicou. Enfim, a notícia se espalhou.

E, se espalhou tanto, que o Professor Ventura foi procurado por uma multidão de especialistas que queriam que ele revelasse o segredo.

- Como armazenar energia num buraco.

Exigiram que ele revelasse, mesmo sabendo que era o resultado de uma aposta, se ele tivesse a solução, deveria torná-la pública. E assim ficou combinado que no sábado, o dia que ele deveria mostrar a solução do problema, isso seria feito numa “live”.

- O evento foi anunciado. Milhares de inscritos. Muitos fizeram apostas. Muitos tentaram adiantar a solução com hipóteses as mais diversas:

- Mini buraco negro

- Colocar um supercapacitor no fundo de um buraco

- Inverter um buraco para armazenar energia negativa (se isso é possível não sei.)

- Encher um buraco de elétrons

- Usar um elastor dentro de um buraco. Os dois são coisas invertidas...

(O que é um elastor? Veja no nosso site a resposta.

E muitas outras hipóteses que certamente careciam de fundamentação científica, quando mais de possibilidades para ser colocadas em prática.

É claro que alguns fatos interessantes ocorreram na cidade, tornando o assunto ainda mais relevante. E, como não poderia deixar de ser, foi justamente com o Epaminondas que um pequeno acidente ocorreu neste interim.

Na sexta feira, um dia antes da apresentação do Prof. Ventura, terminando sua apresentação no coreto onde a banda tocou, Epaminondas voltava para sua casa tarde da noite quando aconteceu o inesperado.

Havia chovido muito durante o dia, e ia até a casa do músico numa vila próxima do centro tinha poças d’água e alguns pontos com barro, que havia deslizado das barrancas. Havia muita terra espalhada, pois a prefeitura estava realizando algumas obras além do que também havia buracos.

Buracos!

Preocupado com os buracos do prof. Ventura, Epaminondas não prestou muita atenção no caminho e caiu... Num buraco!

- Uaiiiii!...

No fundo, cheio de água e barro, Epaminondas estatelou-se, sujando a rouba e enchendo a tuba de água barrenta. Nesse momento, um clarão e uma trovoada de uma chuva que se aproximava fizeram a tuba ressoar com um som brontofônico. (veja no nosso artigo ART3969 o que é isso)

Assustado, sujo de barro o baixinho teve dificuldades para sair. Felizmente não estava machucado. Imaginando energias negativas vindas do fundo do buraco que poderiam sugar ele e sua tuba para outra dimensão transformando-o em energia num experimento do Professor Ventura, ele correu. E como correu!

- Pafúncia! Socorro! – gritou para a esposa ao entrar correndo em casa.

Ofegante, ele contou uma estória de que teria sido “atraído” para o buraco por forças estranhas e como escapou de ser sugado para uma quarta dimensão...

Sua esposa, já sabendo dos seus exageros, acalmou-o.

O dia da apresentação da solução do problema chegou. Todos esperavam pelo professor Ventura. A live foi aberta exatamente no horário combinado. Beto e Cleto se encarregaram de gerenciar o canal. Uma câmera foi colocada no laboratório apontando para um quadro negro. O professor Ventura a utilizaria nas suas explicações.

Milhares haviam se inscrito, acompanhando avidamente Prof. Ventura no seu canal.

O sinal foi dado, e o Professor Ventura começou. Depois de agradecer a audiência e explicar o motivo dele estar ali, minimizando as consequências dos fatos que haviam se propagado de forma tão inesperada, ele disse que era apenas uma aposta, mas que tinha uma forte fundamentação científica e era perfeitamente viável. Ele explicaria:

- Vou procurar falar de maneira bem simples para que todos entendam. Vou usar apenas os conceitos da física que todos devem ter aprendido lá nos seus cursos médios e eventualmente até no curso fundamental. Nosso ponto de partida é energia, pois estamos justamente tratando do modo como ela pode ser armazenada.

O professor foi ao quadro negro onde representou um retângulo no interior do qual escreveu a palavra energia.

- Não existe uma definição para energia: Dizemos que um corpo ou um sistema tem energia quando ele tem a capacidade de realizar um trabalho. Trabalho? O que é isso? Trata-se da capacidade de realizar uma força, uma ação ou um movimento. Para movimentar um corpo de um local para outro, precisamos aplicar uma força nele. Com isso nós dispendemos energia, que vai ser dada pela força que realizamos multiplicada pelo percurso em que devemos mover o objeto e, é claro, pela sua massa.

O professor fez uma pausa.

- Continuando. Neste caso, temos energia mecânica, ou seja, convertemos a energia disponível neste corpo em força que se converteu em deslocamento. Mas, podemos ter outras formas de energia que não interessam totalmente neste momento. Podemos ter a energia armazenada numa bateria na forma de substâncias químicas que podem liberá-la na forma de eletricidade, acendendo uma lâmpada, por exemplo. O mesmo ocorre num capacitor em que armazenamos a energia num campo elétrico, e depois podemos obtê-la na forma de uma corrente elétrica. Mas, voltemos à energia mecânica.

Apagando os desenhos anteriores no quadro, o professor desenho três molas. Uma em posição normal, uma contraída e outra distendida. Ele explicou:

- Uma mola em condições normais, não pode realizar nenhum tipo de esforço ou produzir algum tipo de movimento. Ela não contém nenhuma energia armazenada. Certo?

Muitos dos que estavam acompanhando a live, acenaram com a cabeça, concordando, mesmo sabendo que não estavam sendo vistos. O professor continuou.

- No entanto, se aplicar uma força a mola para contraí-la, estou usando energia para isso e essa energia ficará armazenada nesta mola. Posso recuperar essa energia depois fazendo com que a mola a entregue movimentando algum tipo de mecanismo. Relógios antigos e brinquedos faziam isso. Precisávamos “dar corda” para eles funcionarem. O que estávamos fazendo era simplesmente armazenar energia na mola.

Aguardando uns segundos, o professor prosseguiu.

- É lógico que a mola poderá entregar a energia até voltar à posição Normal. Veja então que armazenamos energia potencial “positiva” na mola. Mas aí é que entra algo interessante:

Levantando o dedo para chamar atenção o professor foi até a mola esticada:

- Para esticarmos uma mola, tirando-a de sua posição normal, também precisamos fazer força. Estamos também armazenando energia que pode ser aproveitada quando ela se contrair até o normal. No entanto, em física precisamos ter referência quando desejamos medir alguma coisa, ou seja, uma grandeza.

O professor apontou então para a mola na posição normal:

- Quando a mola está na sua condição normal, sem estar contraída ou distendida, ela não tem a capacidade de movimentar alguma coisa, ou seja, de realizar um trabalho. Assim, dizemos que sua energia é zero. Como se trata de uma energia que é dada pela força e não pelo movimento, vamos além e dizemos que sua energia potencial é zero.

Ele prosseguiu:

- Então, podemos dizer que a mola contraída tem energia potencial positiva, cujo valor depende de seu grau de contração. E, que ela tem energia potencial negativa, se estiver distendida, dependendo de seu esticamento.

Beto e Cleto que acompanhavam o professor, concordaram. Ele continuou.

- Agora, estamos chegando perto do que interessa. Valor imaginar a energia potencial de um corpo que está num local elevado. Se tomarmos como referência o nível do chão como zero, ele terá tanto maior energia, ou seja, capacidade de realizar trabalho, quando maior massa ele tiver e mais alto estiver.

O professor projetou um slide em que aparecia um relógio cuco antigo.

- Num relógio como esse, quando puxamos a corrente e elevamos o peso, estamos entregando ao peso energia potencial. Com a energia potencial positiva, ao descer ele a entrega ao mecanismo que faz o relógio funcionar. Até que no nível mais baixo, não tendo mais energia para entregar, o relógio para. Precisamos novamente entregar-lhe energia suspendendo-o.

O professor foi ao quadro onde havia desenhado uma represa.

- Neste caso, temos a energia potencial positiva de uma represa. A água contém energia que pode entregar a uma turbina que a converte em eletricidade quando ela se movimenta para um nível mais baixo, que tomamos como referência como zero. Vejam então que podemos armazenar energia numa represa.

Ele então levantou o dedo indicador e explicou:

- Estamos chegando ao ponto: se durante o dia, pegarmos a energia solar captada por painéis e a usarmos para bombear água para uma represa. No fundo, estamos armazenando energia solar nessa represa.

O professor, com expressão muito séria, olhou para a câmera e perguntou:

- E se a água puder escorrer para um buraco? Ela ainda entregará energia a uma turbina?

Beto e Cleto se entreolharam.

- Sim certamente! – disseram e com isso o Professor concordou.

- Se tomarmos o nível da água normal, por exemplo, numa planície em que não podemos ter uma represa. E fizermos um buraco. Ao escorrer a água pode entregar energia a uma turbina. Como sua energia no nível de referência é zero, ao escorrer ela passa a entregar sua energia potencial positiva para o buraco que vai diminuindo sua energia potencial negativa. Em suma, no fundo do buraco teremos água com energia potencial negativa e à medida que eleva enchendo, a energia do buraco vai subindo rumo ao zero.

- E a turbina funciona!

Beto comentou com Cleto.

- É diferente de temperatura que não existe frio mais frio que o zero absoluto. Energia não, podemos tê-la na forma negativa.

O professor continuou:

- Chegamos ao ponto: vamos imaginar agora que fazemos um enorme buraco aqui em nossa cidade. Um buraco com 40 metros de profundidade e 100 x 100 m de dimensões.

O professor fez um desenho ilustrando o que queria demonstrar:

- A meia altura, por exemplo, 20 metros do fundo colocamos uma turbina que terá a água trazida por um cano de nosso rio, que corre no nível normal. No fundo do buraco colocaremos um cano que será ligado a bombas para esvaziar o buraco. Essas bombas serão acionadas por painéis solares.

Tudo isso foi desenhado no quadro negro. O professor estava pronto para explicar então sua ideia:

- Vamos partir do instante em que o buraco está vazio. Não vou dizer que na realidade ele está é cheio de energia potencial negativa, mas é isso.

Muita gente que não havia acompanhado o raciocínio do mestre não entendeu, mas ficaria claro mais adiante.

- Quando abrimos as comportas para encher o buraco, a água vai preenchendo-o e com isso movimentando as turbinas que geram energia elétrica, para alimentar as luzes da rua da cidade à noite. E energia negativa do buraco vai diminuindo à medida que a água sobe. Isso até o ponto em que ela chega ao nível da turbina.

O professor mostrou então os pontos A e B do seu desenho.

- Esta é a faixa de aproveitamento da energia negativa do buraco. Acima disso, a água já perde sua pressão à medida que o buraco enche e o aproveitamento da energia começa a diminuir.

Estava ficando claro para Beto e Cleto.

- Nesse ponto, já aproveitamos a energia potencial negativa que estava armazenada no buraco. Precisamos repô-la “carregando” novamente o buraco de energia. Assim, basta que o dia seguinte os painéis solares acionem as bombas de esvaziamento do buraco que então, à medida que a água baixa, vai tendo sua energia negativa reposta. Ele volta a ficar carregado de energia.

- Caramba! O professor tem razão. Estamos armazenando energia no buraco. – Comentou Cleto

O professor ouviu o rapaz e sorriu.

- Uma vez carregado, com toda sua energia armazenada, à noite basta ligar a turbina para enchê-lo novamente até o nível ideal, e usar a energia para iluminar a cidade! E assim, usamos a energia armazenada num BURACO!

Beto e Cleto não puderam deixar de aplaudir.

- Energia potencial negativa! Tudo depende da referência. – Completou Cleto.

- O que não se pode fazer com um bom conhecimento da física. Princípios simples e óbvios, mas usados de maneira inteligente. Temos muito ainda que aprender.

- Sim! – completou Cleto. – Não é apenas conhecer os princípios, mas saber interpretá-los e usá-los. Perdemos a aposta!

- Mas com satisfação por ter aprendido algo novo.

Até o prefeito da cidade, que acompanhava a transmissão teve uma reação inesperada.

- Caramba! Isso significa que posso abrir buracos à vontade na cidade, sem precisar fechá-los! Posso aproveitar para armazenar energia!

Não era bem assim, o que foi explicado por um assessor, mas tinha mexido com os brios do político.

Depois tudo, com os parabéns de muitos pelas explicações e os esclarecimentos, muito consistentes, encontramos o Professor Ventura, Beto e Cleto na sorveteria, cada um com um belo picolé.

- O senhor ganhou, mas ainda não estou totalmente convencido. A energia estava disponível lá, mas ninguém havia se dado conta disso. – Começou Cleto.

- Sim, é o ovo de Colombo (*). A solução estava todo o tempo lá, mas ninguém havia se dado conta. Era só saber como explorar. – Explicou o Professor Ventura que continuou.

- E como essa solução, deve haver muitas outras, bem debaixo dos nossos narizes. É só saber explorar.

Beto comentou:

- Sim, mas é preciso ter muita imaginação e senso de observação. Uma qualidade que todo o maker, cientista, inventor deve ter.

- Certamente! São as qualidades que os grandes criadores têm. Não é algo que se aprende. – Completou o professor Ventura.

- E certamente o Senhor tem essa qualidade! Pode até ver outras formas de se armazenar em lugares que nem imaginamos. Nem é preciso dizer isso.

E, olhando para seu sorvete, o Professor Ventura completou de uma forma que jamais alguém imaginaria, muito menos Beto e Cleto.

- Sim, podemos armazenar energia até mesmo neste sorvete...

Beto e Cleto saltaram das suas cadeiras.

- Essa não!

- Apostamos! – completaram os três ao mesmo tempo, selando a aposta com as mãos dadas

E, realmente, o Professor Ventura apostou com os dois alunos que ele teria um modo eficiente, cientificamente consistente e tecnologicamente possível de armazenar energia num sorvete.

Mas, isso é assunto para nossa próxima estória: “Armazenando Energia num Sorvete”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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