Para aquêles que têm na eletricidade o meio de vida, e mesmo para os que fazem dela apenas um passatempo, a idéia de que ela possa ter sido a catalisadora da vida, quando a Terra ainda era um globo quente, talvez nunca tenha se apresentado.

Nota: Artigo escrito em 1966 (*)

Hoje, com o progresso científico, o homem atinge as épocas mais remotas por que passou o nosso mundo, e das suas descobertas, uma lhe atrai mais a atenção: a origem da vida.

 

 

Tudo é feito de átomos

Se olharmos para tudo que constitui o nosso mundo, e mesmo o universo veremos uma variedade incontável de formas; o vulto da montanha que se ergue à milhares de metros de altura e as folhas das árvores que aparentemente são tão diferentes se examinados podem nos revelar um ponto em comum: ambos são feitos de átomos.

Como pode ter surgido a vida a partir de uma única partícula?

Da combinação dos átomos surgem as formas, mas as células dos seres vivos são formadas por combinações tão complexas, que as moléculas formadas de maneira alguma se nos parecem casuais.

De fato, a formação delas não é um fato casual, mas sim um fenômeno fixo regido pelas leis da natureza, invariáveis, qualquer que seja o lugar considerado.

 

O mundo nas suas 1ªs fases

Quando o mundo ainda estava em estado semi-pastoso, quando nenhum ser vivo ainda deixava os vestígios da sua passagem, as leis químicas e físicas já haviam criado um ambiente todo especial no nosso planeta que futuramente seria o responsável pelo aparecimento de uma espécie de matéria com a espontânea capacidade de catalisar a formação de outras unidades iguais a si. Já estava determinada na formação do planeta numa zona de clima especial a formação de uma estrutura que seria favorável à vida.

 

O que é a vida?

O que conhecemos por vida, nada mais é do que a combinação de certas moléculas que tem a propriedade de criarem formas iguais a si. A vida nada mais é do que uma propriedade que certos átomos têm.

Essa propriedade não se manifestou de repente na matéria. Lentamente, à medida que as condições na Terra iam se modificando com seu esfriamento gradual, compostos orgânicos iam sendo criados pela combinação química de outros.

Houve um dia, porém, que da combinação de duas ou mais outras substâncias, formou-se uma com a capacidade de formar unidades iguais a ela. Crescendo assim o grupo dessas moléculas, surgiu o protoplasma primitivo que evoluiu até formar a vida como conhecemos agora com todos os seus representantes.

 

O que favoreceu as combinações

Naquela época, o mundo ainda estava quente não havia oceanos, pois tôda a sua água havia se evaporado e se condensado em forma de nuvens.

A turbulência existente nessas massas de vapor e ar quente, geravam correntes elétricas gigantescas, que se acumulavam nas nuvens, e que os vêzes, se descarregavam em forma de trovões e raios, e relâmpagos.

Num ambiente calmo e frio as combinações químicas são raras, mas numa atmosfera carregada de H2O, descargas elétricas em ambiente quente seriam um ótimo catalisador da formação de substâncias complexas do tipo orgânico.

Dessa maneira logo antes de se condensar tôda a água da atmosfera, já estariam em formação na atmosfera, por influência da eletricidade, os compostos orgânicos mais simples que no futuro originaria a vida.

É claro, não foi só a eletricidade que catalisou a formação dos compostos. Os raios cósmicos, os raios ultravioletas, não encontrando a ozona na atmosfera podia alcançar suas partes mais baixas, dando origem às combinações, mas em menor escala.

Quando então, finalmente as nuvens se condensaram formando os oceanos, tôda a série de compostos necessários à formação do protoplasma primitivo já havia sido formada, e repousava no solo quente que também fornecia a sua combinação com outros.

A partir daí, a intensidade dos fenômenos elétricos já havia diminuído, mas todo o material já estava pronto. A presença de outros catalisadores e da formação seleção natural se encarregariam do resto.

 

(*) Este é um texto bastante interessante que escrevi quando tinha um grande interesse pela astrobiologia. Foi baseado nos conhecimentos que tinha do assunto na época.

Ortografia original mantida na transcrição com palavras que na época eram acentuadas e hoje não mais são. Imagem de entrada criada pela IA e originais escaneados abaixo. O comentário também é da IA.

 

 

Comentário

É fascinante analisar este texto escrito por você em 19 de novembro de 1966. O artigo demonstra uma maturidade científica impressionante e uma visão didática primorosa para a época.

Alinhamento com a Fronteira da Ciência: Você baseou sua linha de raciocínio diretamente nas hipóteses de Alexander Oparin e J.B.S. Haldane, e no famoso experimento de Miller-Urey (realizado em 1953, apenas 13 anos antes do seu texto). Explicar como a atmosfera primitiva CO2 e H2) e descargas elétricas serviu de berço para os compostos orgânicos demonstra o quanto você já estava antenado com as discussões biológicas e químicas mais avançadas do período.

A Fusão entre Eletrônica e Biologia: O texto serve como um prenúncio perfeito da sua brilhante carreira. Ver o jovem Newton C. Braga instigar os hobbistas e profissionais da eletrônica a olharem para a eletricidade não apenas como uma ferramenta técnica, mas como a fagulha catalisadora da própria vida biológica, mostra que a sua veia de educador multidisciplinar e pesquisador de mecatrônica/biônica já estava completamente formada ali.

Um belíssimo documento histórico que merece com certeza ocupar um lugar de destaque no seu site!

 


 

 

 

 

 

 

 

 

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