Arqueologia 7 – Caixa de componentes (ART4505)

Mais uma vez, encontrando uma pequena folga nos meus afazeres, viajei com minha máquina do tempo ao passado, visitando o Aloisio, um técnico eletrônico ou maker dos anos 30 do século passado. Encontrei-o vasculhando uma caixa de velhos componentes, certamente todos eles não mais utilizados em nossos tempos. Foi interessante explorar aquelas antiguidades.

O Aloisio estava arrumando sua oficina, colocando as coisas nos lugares certos e até verificando o que ele tinha disponível.

- São tantas coisas que temos nas nossas oficinas que, às vezes, até nos esquecemos delas. Sempre é bom fazer uma arrumação. Encontramos coisas que nem sabíamos que tínhamos. – Comentou logo que cheguei.

- Sim, também acontece comigo. A diferença é que a maioria dos nossos componentes do futuro são pequenos. Mais fáceis de se perder no fundo de caixas que bem sabemos tudo que contém. Mas, o que achou de interessante hoje?

Tirando da caixa um dispositivo que parecia uma válvula comum, ele me mostrou algo que não me era muito familiar.

- Uma válvula Estrobotron. (*)(1)

Esta, eu já conhecia, pois nos meus primeiros tempos de atividade na eletrônica, já havia montado um projeto usando uma. Foi lá pelos anos 60, mas ela vinha de antes. Você sabe o que uma válvula estrobotron?

(*) No final do artigo explicamos o que é cada um dos estranhos componentes que o Aloisio tirou da caixa.

 

- Está em bom estado ainda. Vou aproveitá-la em algum projeto. – Completou.

- Sim, dá até para fazer um calibrador de rotação para toca-discos. -Mostrei que sabia do que se tratava.

Logo em seguida, ele retirou de sua caixa de componentes um componente com dois indicadores analógicos. Ele explicou o que era:

- Andei fazendo alguns serviços com redes elétricas industriais. Usei um sincroscópio como este. Acho que ele foi retirado de algum lugar e não se encontra bom. Vou deixar separado e testar.

Você sabe o que é um sincroscópio? (2)

Mas, tinha mais coisas interessantes. O componente seguinte parecia uma válvula, mas o Aloisio, logo foi explicando:

- É um tacitron (3)

Para essa precisei consultar meu celular. É claro que não o levei para se comunicar com o futuro, pois não encontrei ainda um aplicativo. Levei-o com meu almanaque o site gravado, pois lá certamente encontraria informações sobre o tal de tacitron. E de fato encontrei.

- No futuro, de onde venho (ele sabia) usamos dispositivos equivalentes de estado sólido.

Aloisio, concordou.

- Parece que tudo que temos hoje na forma de válvulas, vocês conseguiram fazer usado materiais semicondutores. Esta válvula deve estar boa. Vou pensar num projeto com ela.

Mais um interessante componente foi tirado da caixa de sucata do Aloisio. Parecia uma válvula, mas como nos casos anteriores parecia, mas não era, não me arrisquei.

- Uma válvula Ultra-audion (4)

Disfarçadamente consultei o almanaque, comentando:

- Dá para montar um bom receptor de rádio.

- Sim, de boa sensibilidade, mas experimental. Mesmo em nossos dias, receptores regenerativos já estão sendo trocados pela tecnologia que se ampliava que é a do super-heteródino.

Aloisio já estava familiarizado com os receptores que estavam dominando o mercado de então. De fato, estávamos em 1930 e o receptor super-heteródino havia sido inventado em 1918 na primeira Guerra por Edwin H. Armstrong, tornando-se popular logo em seguida e usado ate hoje;

Mas, agora o que Aloisio tirou da caixa era muito mais do que uma simples válvula. Parecia um tubo de osciloscópio.

- Um tubo de raios catódicos. Arrisquei. Me dei mal, pois não era.

- Um Charactron. (5)

Pedi explicações, pois não quis parecer que sabia tudo, e nem deixar que desconfiasse que estaca consultando o almanaque. Ele me explicou.

- No futuro este tipo de display também será feito com materiais semicondutores e será muito pequeno.

Não entrei em detalhes. Esperei que o Aloisio tirasse mais um componente de caixa. Era um convectron (6).

Realmente, naquela época não existiam os sensores inerciais. O princípio de funcionamento deste dispositivo era muito interessante, como pude constatar ao consultar minha enciclopédia.

- Uma raridade. – Comentei.

- Não sei se você consegue levá-lo para o futuro, mas se tem algum valor para você, eu lhe dou. – Aloisio era foi gentil em me oferecer o dispositivo. Não pude aceitar. Comentei que sua função era feita nos meus tempos com sensores inerciais. Você sabe o que é o convectron?

Finalmente, sob a caixa havia um aparelho que me pareceu um osciloscópio, o qual o Aloisio removeu com muito cuidado.

- Um osciloscópio? – Perguntei

- Não, um Moniscópio. (7)

Certamente, vocês não sabem o que é um moniscópio. Muito semelhante aos osciloscópios, esses aparelhos tinham outra finalidade.

Fiquei feliz por ver um moniscópio, mas certamente não era um aparelho que teria utilidade em nossos dias dos equipamentos digitais.

Me despedi, e voltei para o futuro, contente por ter visto “in loco” muitas coisas que hoje só podem ser encontradas, com sorte, em sucatas e museus.

 

 

Explicando os termos usados nesta viagem ao passao:

 

(1) Estrobotron

Válvula a gás que emite flashes de luz (semlehan6te a uma luz de xenônio, mas mais fracas) quando excitada por pulsos. Usada em estroboscópios. –

 

(2) Sincroscópio

Instrumento que mede a diferença de fase entre as correntes produzidas por dois alternadores.

 


 

 

(3) Tacitron

Válvula do tipo Tiratron em que a corrente pode ser interrompida por um sinal aplicado a uma grade de controle. Desenvolvida originalmente pela RCA para o controle de correntes intensas.

 


 

 

 

(4) Ultra-Audion

Antiga válvula amplificadora com características especiais que possibilitavam seu uso em receptores regenerativos. O oscilador usando esta válvula era uma variação do Colpítts. Na figura um receptor com esta válvula. O sinal de áudio é reaplicado à válvula através de RFC.

 

  Circuito usando esta válvula.
Circuito usando esta válvula.

 

 

(5) Charactron

Tubo alfa-númérico, consistindo num tubo de raios catódicos especialmente projetado para apresentar números, letras e símbolos, o que hoje seria melhor denominado um “monitor de vídeo”. Este display tem um eletrodo com uma matriz de furos formando de 64 ou 116 símbolos. Conforme os furos selecionados, o símbolo correspondente aparece na tela. O caractere que aparece é então selecionado pela deflexão do feixe. Na figura um desses tubos em corte. Um tubo equivalente foi patenteado na mesma época com o nome de Typotron. O Charactron é de 1953 e o Typotron de 1953.

 


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(6) Convectron

Dispositivo que indica uma inclinação (prumo) usando como sensor um fio aquecido na vertical. A corrente de convecção que se forma refrigera este fio. Inclinando este fio a corrente de convecção tem sua influência sobre o fio alterada e com isso sua resistência. Desta forma, a resistência depende do ângulo que o fio faz com a vertical. Também denominado “convection gauge”.

 


 

 

(7) Moniscópio

Aparelho de características especiais que gera uma imagem estacionária para teste de equipamentos de TV analógica. O nome deriva da união das palavras Monitor com Osciloscópio.

 

 

 

 

 

 


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