Depois de Armazenando energia num buraco (NVENT23), Armazenando energia num picolé (NVENT030) e Armazenando energia no escuro (NVENT034), o Professor Ventura não poderia ficar sem mais uma de suas brilhantes (ou malucas) ideias envolvendo o armazenamento de energia. Novamente, a conversa surgiu numa sorveteria que, num dia de calor ele e seus amigos Beto e Cleto se refrescavam.

 


 

 

🔋Começamos justamente onde parou a aventura anterior. O professor Ventura, Beto e Cleto tomam sorvete, pago pelos dois alunos, em consequência da perda da aposta que haviam feito.

A Sorveteria ficava fora da cidade. Na ligação com a rodovia que passava a alguns quilômetros havia uma velha fazenda que foi convertida num restaurante e sorveteria, atraindo não só os moradores locais, como também, as pessoas que passavam pela rodovia atraídas pela enorme placa que anunciava suas delícias.

Era realmente um ambiente de fazenda, onda as pessoas podiam ter a presença dos animais passeando livremente como, patos num lago, algumas ovelhas e certamente, galinhas.

Conversando sobre as últimas aventuras que tiveram, quando o Professor como era possível armazenar energia num buraco ou ainda num picolé, Beto e Cleto observaram que o velho mestre observava com especial atenção uma galinha que passava com sua ninhada de pequenos pintinhos.

- Não há limite para a imaginação e precisamos fazer uso dela para obter energia de todas as maneiras possíveis. Já demonstrei isso, mas acho que o desafio pode ir além. – comentou o Professor

Beto que estava observando atentamente o professor não deixou escapar isso.

- Sim, até mesmo de uma galinha com seus pintinhos, diria eu.

Cleto riu, mas logo percebeu que, para o professor a coisa era séria. Mais séria do que ele podia imaginar. Um novo desafio havia sido lançado. O professor não deixou por menos.

- Uma galinha com seus pintinhos não, mas uma galinha choca sim.

- ?

O professor então explicou.

- Que tal você não aceitarem mais este desafio? Tirar energia elétrica de uma galinha choca. Mesmo que seja só para acender um LED.

Beto e Cleto não estavam acreditando. Mais um dos desafios malucos do professor Ventura. “Tirar energia de uma galinha choca!”

O professor olhou sério para os dois.

- Fechado? Mas, não deixem a ideia se espalhar. Vocês sabem muito bem que pode acontecer se a cidade ficar sabendo que estamos tentando tirar energia de uma galinha choca.

Beto e Cleto riram, mas logo pararam, lembrando os problemas dos desafios anteriores quando acharam que iam esburacar a cidade e ou cobri-la de gelo. E é lógico, a vítima das ideias do professor, o pobre Epaminondas.

- Não vamos divulgar. Os granjeiros da cidade podem ficar apavorados, achando que vamos sequestrar suas galinhas.

Beto riu.

- E o Epaminondas vai achar que vamos usar sua tuba para colocar nela ninhos de galinhas!

 


 

 

 

Mas, o desafio estava lançado.

No dia seguinte encontramos Beto e leto reunidos para discutir como o Professor Ventura poderia tirar energia de uma galinha choca para acender um LED.

- Vamos analisar a situação da seguinte maneira. – Começou Beto. – Uma galinha choca tem a temperatura do corpo acima do normal, para aquecer os ovos no ninho.

- Uma galinha com febre...

- Sim, isso mesmo. Vamos procurar na Internet qual é a temperatura de uma galinha choca, para ver como isso pode ser aproveitado para se gerar energia a partir de um gerador termoelétrico, por exemplo.

Abrindo seu celular, Beto abiu e google e digitou “temperatura de uma galinha choca”.

O resultado veio imediatamente: entre 37 e 38 graus celsius.

- Puxa! Já estava pensando que deveria ir diretamente a uma senhora galinha choca e medir a temperatura.

 


 

 

 

Mas, o problema era técnico. Como obter energia elétrica a partir de uma alta temperatura de um corpo. Cleto lembrou-se de uma notícia da internet em que se anunciava que “pesquisadores chineses haviam inventado um dispositivo para gerar energia elétrica a partir do corpo” (09/05/2021). Beto comentou esse tipo de notícia.

- Hoje, vemos muito na internet notícias de canais que são feitos por pessoas que não tem uma formação técnica ou científica que seria desejada para se tratar de uma maneira mais séria esse tipo de assunto. São pessoas mais ligadas ao jornalismo que procuram a notícia e às vezes as repassam sem uma análise mais profunda ou ainda uma abordagem que seria necessária ao bom entendimento do fato.

- É verdade! – Comentou Cleto. Beto continuou.

- É comum confundirem as coisas, principalmente quando se trata da palavra “energia” nem sempre usada de forma apropriada, e ainda a confusão de fatos, dando como “invenção”, algo que já existe muito tempo.

Beto prosseguiu:

- Esse é o caso. Os dispositivos que convertem calor em eletricidade são conhecidos de há muito. Espere, é aí que entra a nossa galinha choca.

Cleto estalou os dedos:

- Dispositivos de efeito Peltier. A termoeletricidade.

Beto explicou com detalhes.

- Sim, e aí nova confusão! Em 1834, Jean Charles Althanase Peltier descobriu que uma corrente passando pela junção semicondutora fazia com que uma das faces esfriasse e a outra ficasse quente. O calor era transferido da mais fria para a mais quente. O efeito foi denominado “Peltier” em sua homenagem.

Cleto não se convenceu.

- Sim, mas onde está a confusão.

Beto explicou:

- O efeito contrário também existe. Havia sido descoberto antes pelo físico Thomas Johan Seebeck: se houver uma diferença de temperatura entre duas faces de materiais que formem uma junção semicondutora, entre elas aparece uma tensão.

- Ah! Então podemos usar o efeito Seeback a partir de um dispositivo Peltier! Mas, os diabos, como você sabe tudo isso?

Beto riu.

- Andei pesquisando ontem.

Mas, e a galinha?

- As pastilhas ou dispositivos de efeito Peltier são comuns atualmente. Elas são usadas em mini geladeiras, bebedouros de água e outros dispositivos que devem retirar calor de alguma coisa para jogá-lo ao ar ambiente. Podemos comprá-las por pouco dinheiro na internet.

Cleto ainda não havia entendido.

- Vamos então refrigerar uma galinha choca fazendo-a deitar-se numa pastilha Peltier...

Não era bem isso. Beto continuou com suas explicações.

- O que talvez muitos não saibam é que as pastilhas Peltier também podem funcionar “ao contrário”, como dispositivos Seebeck, gerando eletricidade a partir do calor.

- Ou mesmo do frio, como o Professor Ventura provou ao tirar energia elétrica do gelo...

Cleto lembrava-se de recente aventura que tiveram, quando o professor Ventura provou que era possível tirar energia elétrica de um picolé.

- ... Uma galinha choca chupando picolé deitada sobre uma pastilha Peltier! Tudo isso para gerar energia. Ora essa!

Beto riu.

 

 


 

 

 

- Precisamos fazer um teste!

Tudo bem!

Mas, não estava tudo bem. Como sempre ocorre numa cidade pequena, as notícias vazam com extrema facilidade e não seria dessa vez que o Prof. Ventura, Beto e Cleto escapariam.

Naquela tarde em que os três tomavam despreocupadamente os seus sorvetes, não perceberam que o Jonas, proprietário da sorveteria, sabendo que poderia ter novidades para espalhar entre seus clientes, o que gostava de fazer, ficou na mesa atrás deles de ouvidos bem abertos.

De fato, na cidade todos sabiam que quando os três se reuniam, novidades estavam no ar. E estavam.

- Caramba! Tirar energia de uma galinha choca. Preciso esconder a naftalina (Nome que também é da galinha do Eltron. (VEL017a))

De olhos arregalados, Jonas não sabia se corria para esconder a sua galinha com a ninhada ou se espalhava a novidade pela cidade. Escolheu a segunda opção, pois logo raciocinou que, se a galinha estava com a ninhada, não estava mais choca...

E a notícia se espalhou.

- Tirar energia de uma galinha! Só faltava essa. Os granjeiros vão logo ver mais uma forma de ganhar dinheiro. Já não basta o preço dos ovos nas nuvens. – Comentava alguém

- Disseram algo sobre a galinha tomar sorvete.

- Vai complicar! Ter de trocar o milho e a ração nas granjas por sorvete. Não vai pegar.

Os dois que conversavam riram.

No entanto, a notícia dos novos experimentos do professor ventura também havia chegado a alguém que, por ser sempre vítima desses experimentos, vivia preocupado. O Epaminondas.

- Caramba! Tirar energia elétrica de uma galinha choca. Transformar uma granja numa usina! Fico preocupado só em pensar. – Comentava Epaminondas com um cliente, que o acalmou.

- Não há com que se preocupar. Não vejo onde esses experimentos o podem afetar.

Mas, Epaminondas não pensava assim. Justamente quando não se pensava em qualquer relação entre os experimentos do professor Ventura e Epaminondas com sua tuba não existia, algo acontecia e juntava os três!

E com consequências catastróficas!

Despreocupado, procurando esquecer o fato, Epaminondas fechou a barbearia no final da tarde e foi para casa, carregando sua tuba, pois sempre a levava para ensaiar entre dois clientes, assobiando alegremente seventy-six trombones (*), música que ele adorava, por falar justamente de seu instrumento, a tuba.

(*) Música de um musical americano antigo chamado Music Man (1957), de Meredith Wilson em que na letra em inglês se fala de diversos instrumentos de uma banda, incluindo o Eufônio, o antigo nome da tuba. (https://www.youtube.com/watch?v=eBQWsBiM5YY)

Tudo ia bem até que algo o assustou. Passando diante de um terreno baldio, uma galinha com sua ninhada atravessou correndo na sua frente e parou por um instante. Parecia olhar fixamente para a tuba do Epaminondas. Depois continuou, desaparecendo entre os arbustos do lado oposto da rua.

O músico tomou aquilo como um presságio. Um mau presságio!

Em casa, não parou de pensar no episódio. Tuba, galinhas choca, energia elétrica e o Prof. Ventura. Brrr...

No dia seguinte, discutindo o assunto mais uma vez, preparando a demonstração que provaria que é possível tirar energia de uma galinha choca...

- E qualquer coisa viva que seja quente! – comentou Beto.

Cleto, começou a rir... O professor e Beto não entendiam o motivo. O gorducho explicou:

- Já repararam como o Epaminondas faz força para tocar a tuba. Depois das apresentações da banda ele sai todo suado. Deve dispender uma enorme quantidade de calorias... Fico pensando se todas essas calorias fossem convertidas em energia elétrica.

O professor gostou da observação.

- Realmente! O Epaminondas seria bem melhor do que uma galinha choca...

Beto, rindo completou.

- Quero ver como vai convencer o músico a sentar num ninho cheio de ovos e tocar sua tuba...

Cleto, com mais humor foi além.

- Também precisaríamos medir sua temperatura para calcular a energia convertida. Tocando a tuba não seria possível enfiar o termômetro na boca e então o único lugar que sobra...

Imediatamente Beto e o Professor Ventura olharam agressivamente Cleto.

- É debaixo do braço...

- Ufa! Por pouco pensamos que você iria falar uma besteira.

Cleto completou.

- Mesmo porque gostaria de ver quem teria coragem de enfiar o termômetro no Epaminondas, no local em que vocês pensaram....

Todos riram.

- Mar certamente, colocando pastilhas Peltier na cadeira em que ele se senta para tocar, acho que poderíamos gerar energia para todos os amplificadores e equipamentos da banda... Certamente é por baixo que ele dissipa a maior parte do calor gerado.

Mais uma vez, todos riram.

Mas, o professor Ventura parou repentinamente de rir.

- Êpa! – disse Beto – Não me diga que está pensando em...

O professor não deixou Beto completar.

- Sim, isso mesmo, mas eu conto os detalhes depois do experimento.

O dia da comprovação tinha chegado.

Na mesa do laboratório uma pastilha Peltier, um recipiente com pedras de gelo, um dissipador de calor e uma vasilha em forma de ninho com algodão e algumas penas. Mas, o que chamava a atenção era uma galinha numa gaiola, num canto do laboratório.

O professor explicou então.

- Já falei em aula sobre o efeito Peltier. Quando uma junção semicondutora é percorrida por uma corrente, ocorre uma movimentação de calor. Calor é retirado de uma junção e transportado para outra.

Beto completou:

- Sim, dessa forma, uma das faces do material que corresponde a uma das junções esfria e a outra esquenta.

As explicações do professor seguiram:

- Esse recurso é usado em pequenas geladeiras, adegas e recipientes térmicos para armazenar medicamentos. Mas, o mais importante é que o efeito inverso também existe;

- Inverso? – interrogou Cleto.

- Sim, o Efeito Seebeck.

- ?

- Seebeck descobriu que se uma das junções for esfriada ou aquecida, ocorre um fluxo de calor. Do lado mais quente para o mais frio e uma tensão se torna disponível. O fluxo de calor se torna energia elétrica. Basta que haja um gradiente de temperatura, ou seja, uma diferença de temperatura para que o calor flua e com isso energia elétrica possa ser obtida.

Cleto percebeu bem como funcionaria o experimento do Professor.

- Basta então colocar algo quente numa face de um dispositivo Peltier e o fluxo de calor fará com que ele produza energia.

O professor fez um aparte:

- Sim, um dispositivo Peltier funcionando como um dispositivo Seebeck. Convertendo o fluxo de calor em energia elétrica.

- Já pegamos. Uma galinha choca é uma fonte de calor e o fluxo de calor pode se converter em energia elétrica.

- Basta colocá-la sobre a pastilha. Mas, como obter energia suficiente?

O professor tinha a resposta.

- Boa pergunta! Esfriando o outro lado da pastilha. Daí o dissipador de calor e o gelo.

- Pobre da galinha! Vai extrair todo calor dela!

O professor olhou sério.

- Não é bem assim, mas com um bom gradiente de temperatura obtemos uma boa tensão.

- Suficiente para iluminar o galinheiro. – comentou Cleto

- Não chega a tanto. – explicou o Professor Ventura. – Os dispositivos de efeito Peltier, assim como a maioria dos dispositivos que trabalham com calor têm um rendimento muito baixo. É o chamado Ciclo de Carnot que diz que numa transformação térmica nunca podemos obter 100% de rendimento.

- E as pastilhas Peltier não fogem a regra. – Completou Beto.

- Mas, podemos ter energia suficiente para acionar um circuito eletrônico, um buzzer ou um multímetro para mostrar como funciona o processo. Esse é o experimento.

- Perfeito! Já entendemos.

O professor Ventura, como sempre em qualquer conversa, não perdia a oportunidade de avançar com o tema, procurando passar informações, ensinamentos e coisas novas, que na maioria das vezes eram fantásticas novidades da tecnologia. Desta vez o tema estava centrado nas galinhas.

De fato, nos últimos tempos a eletrônica tem estado presente em todas as partes e mais do que nunca, de forma que até se torna preocupante, nos seres vivos.

- Vocês sabem que as criaturas vivas são criaturas eletroquímicas. Nosso corpo é feito de substâncias que, no estado líquido ou com a presença de líquidos que as torne condutores, tem uma sensibilidade extrema para sinais elétricos e, mais do isso, os geram.

Beto, justamente tinha lido coisas preocupantes que estava saindo na mídia.

- Acho que estamos passando por uma transição em que não apenas os sinais gerados pelos seres vivos e os sinais para os quais eles são sensíveis estão se tornando importantes. A física quântica com o entrelaçamento de elétrons tem mostrados alguns fenômenos que podem ser aproveitados na interação de organismos vivos com o mundo exterior.

- Mais do que isso! – completou Cleto. – Entre os próprios organismos vivos revelando coisas que nem sequer suspeitávamos.

O professor Ventura sorriu.

- Sim, já falei anteriormente que existem fenômenos inexplicáveis de interação dos organismos vivos que não podem ser explicados por fenômenos elétricos ou eletroquímicos comuns.

Cleto, atento, se lembrou.

- Sim, me lembro daquela notícia que comentamos em que cientistas revelaram que estruturas das nossas sinapses não explicada até então, poderiam estar sendo usadas em comunicações quânticas. Isso explicaria fenômenos como a percepção extra-sensorial, a clarividência e até a comunicação mente a mente.

- Telepatia quântica! – completou Beto.

O professor lembrou então um artigo publicado que falava da possível ideia de que uma florestas poderia ter todos os seus componentes se comunicando desta forma. As plantas poderiam até alertar uma as outras sobre possíveis ataques e acionar meios de defesa conjuntos que não conhecemos.

Mas havia algo mais. Beto lembrou.

-Viram a notícia desta semana. Os chineses teriam conseguido pela primeira vez uma comunicação cérebro a cérebro usando tecnologia quântica.

O professor fez um gesto para acalmar Beto.

- É claro que está tudo muito no começo e não temos certeza sobre a exatidão da notícia, se bem que os princípios comentados não tenham nada que contrarie a ciência. Na verdade, isso serve de um alerta. Muita coisa que antes não dávamos a devida atenção ou que considerávamos fora da ciência como para-ciências, no caso, fenômenos paranormais, começam, não apenas a ser explicados, mas também controlados e usados.

Cleto sorriu.

- Se falássemos a um cientista do final do século XIX de caixinhas que poderiam ser comunicar através do espaço e gravar a nossa voz, chamaria isso de feitiçaria e jamais aceitaria.

- Hoje temos o celular. – completou Beto. – No passado não seria ciência, mas sim magia.

- Mas, onde entram as galinhas em tudo isso? – Cleto riu ao fazer essa pergunta.

O professor Ventura como que acordou.

- Realmente, nosso tema principal está nas galinhas. Como essas criaturas se interam com nosso mundo como poderia isso ser aproveitado pela tecnologia?

Beto tinha algumas ideias sobre o assunto.

- Galinhas, como todos os seres vivos são sofisticadas estruturas dotadas de um sistema nervoso que as dota de um grau elevado de interação com ambiente e permite que elas tomem decisões e até se comuniquem com outras galinhas.

- Ou com seres de outras espécies. Quem saber!

O professor Ventura riu do comentário do Beto. Ele continuou.

- Uma coisa importante que está ocorrendo em nossos tempos e o avanço das pesquisas que envolvem a interação de criaturas vivas com dispositivos criados pelo homem, principalmente os que usam a eletrônica. Por exemplo, uma pesquisa interessante mostrou que as galinhas parecem apreciar sons que tenham uma certa harmonia, exatamente como nosso fazemos com a música.

- Gosto pela música! –

- Sim, Cleto. Descobriam que a música clássica parece ter um efeito calmante sobre as galinhas que então botam mais ovos! Em alguns países, um alto-falante no viveiro das galinhas, toca música clássica o dia inteiro e parece que isso funciona.

- Gostaria de saber o que Mozart ou Beethoven pensariam disso.

Beto e o Professor riram do comentário de Cleto. Mas, parece que as mentes, quando se trata de algo maldoso entram em sincronismo e no caso não havia dúvidas. Foi o Cleto quem falou primeiro.

- Será que as galinhas apreciariam a música de tuba do Epaminondas?

É claro que algum tipo de experimento poderia estar na cabeça dos três, envolvendo o pobre Epaminondas, mas não precisou muito para isso ocorresse naturalmente. Dizem até que no nosso universo os acontecimentos seriam previamente programados, sabe-se lá por quem e isso justificaria muitas coincidências de fatos que ocorrem sem explicações. Dizem até alguns teóricos que nosso Universos seria produto de um grande experimento feitos por inteligências desconhecidas...

Mas, teorias à parte se unirmos os fatos, galinhas, conversão de energia, sons que influencia animais, Epaminondas e sua tuba, não podia deixar de acontecer, mesmo porque o autor é livre para criar isso.

E o que aconteceu?

Sabemos que todas as manhãs antes de abrir a barbearia, Epaminondas costuma ensaiar com seu instrumento, preparando-se para as apresentações que faz normalmente à noite, depois do final do expediente.

Naquela manhã, preocupado com as notícias que corriam pela cidade, indicando que o Professor Ventura estaria programado estranhos experimentos para tirar energia das galinhas, eventualmente usando sua tuba, abraço fortemente seu instrumento dirigindo-se à barbearia. Chegou sem problemas, apenas cruzando com uma outra galinha solda no caminho, das quais se desvio com preocupação. Na barbearia começou seu ensaio. Mas, estava preocupado.

Em Brederópolis, a cidade de nossos amigos, havia muitas granjas e o transporte de galináceos entre elas era comum. Ainda se usava engradados de madeira em que as aves eram colocadas e os engradados empilhados em caminhões abertos.

Passando diante da barbearia, um desses caminhões teve um forte solavanco ao encontrar um buraco, e diversos engradados caíram. É claro que, sendo de madeira frágil, partiram-se e as galinhas puderam escapar. O motorista não percebeu nada, continuando seu caminho.

Em pouco tempo, mais de 100 galinhas estavam espalhadas na rua, confusas, sem saber o que fazer o para onde ir. Cedo como era, ninguém na cidade percebeu, nem o Epaminondas que continuou a ensaiar.

Mas, aconteceu o inesperado. Que efeito pode ter som de tuba sobre o comportamento das galinhas? Ao que parece havia algo interessante a ser analisado. Ele as atraia.

Em pouco tempos, as dezenas de galinhas caídas do caminhão se reuniram na porta da barbearia.

Chegou a hora de abri-la e o susto do Epaminondas foi grande.

- Aahhh! Galinhas! Estão invadindo o planeta.... Não! Espere. Isso tem algo a ver com o professor Ventura.

E antes que pudesse fazer alguma coisa, as dezenas de galinhas invadiram a barbearia para surpresa do Epaminondas que, empunhando uma vassoura procurava espantá-las.

- Chôo! Chôoo!

Com muito esforço, as galinhas foram postas para fora, mas o barulho tinha atraído algumas pessoas que logo perceberam o que tinha ocorrido. Os pedaços dos engradados na rua revelaram o acidente.

Mas a dúvida persistia nos comentários das pessoas.

- Por que as galinhas entraram na barbearia?

Um engraçadinho, logo emendou:

- Ora, pelo mesmo motivo que cachorros entram nas igrejas. Porque encontram a porta aberta.

- Mas tem algo a ver com o experimentos do Professor Ventura?

- Sim, galinhas e energia!

- Tem a ver sim, acho que devemos pedir explicações.

- Sei não. Pode ter sido só um acidente.

- Muita coincidência.

As galinhas foram recolhidas e o fato principal é que o professor teve dificuldades em explicar que ele não tinha nada com o ocorrido. Mas, independente disso ele pensava na sua demonstração, para ganhar a aposta.

O professor Ventura preparou então a demonstração. Numa bancada apoiada sobre um dissipador de calor que foi retirado de um velho computador, uma pastilha Peltier ligada a um voltímetro.

E, sobre a pastilha Peltier um recipiente de alumínio, uma “marmita” dessas que podem ser encontradas em qualquer loja. Ela funcionaria como um captador de calor, e tinha o tamanho exato que permitia encaixar uma galinha. Galinha?

Indo então ao canto do laboratório, o Professor tirou de um engradado uma galinha. Pelo seu comportamento, parecia choca. Teria a temperatura ideal para o experimento.

A pastilha Peltier estaria ligado ao voltímetro, numa escala que permitia ler alguns volts de tensão contínua. O voltímetro indicava inicialmente zero, já que a temperatura do dissipador era a mesma da marmita em que iria ser apoiada a galinha.

 


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O professor teve o cuidado de colocar na marmita um pouco de palha imitando o ninho da galinha.

Colocando-a então cuidadosamente sobre o “ninho” os três puderem ver após alguns segundos a agulha do multímetro analógico subir, indicando uma tensão que chegou a mais de 1,5 V.

- O equivalente a uma pilha! – exclamou entusiasmado Cleto.

O professor Ventura explicou então:

- A energia vem dos alimentos que a galinha ingeriu e que agora armazenada no seu organismo “queima” para produzir calor. O calor flui da galinha para o dissipador passando pelo dispositivo Peltier, ou melhor, Seebeck e com isso converte-o em energia elétrica.

O professor parou e levantando o dedo exclamou vitorioso.

- Energia armazenada numa galinha e aproveitada para alimentar um circuito eletrônico.

Cleto ficou entusiasmado.

- Vou vender carregadores de celular a partir da energia em galinhas. Junto com o kit vem uma galinha!

- Choca! - riu Beto.

A aposta tinha sido vencida pelo professor, que então aproveitou para complementar seus ensinamentos.

- Fica a lição! Onde houver a possibilidade de se armazenar energia pode-se criar um recurso tecnológico. Tudo depende da imaginação! Temos visto entre os jovens maker a enorme habilidade que eles têm de trabalhar com os recursos tecnológicos, mas, por outro lado, tenho observado uma enorme falta de imaginação e criatividade.

- Já tinha pensado nisso. Os projetos são sempre os mesmos! – Interferiu Beto.

O professor continuou.

- Sim, veja os microcontroladores. Têm uma infinidade de recursos que podem ser usados em praticamente tudo, mas o que vemos: uma enorme quantidade de robôs segue-a-linha, controle de reservatório, automatismos fotoelétricos e só. Falta imaginação.

O professor fez uma pausa.

- Tem tanta coisa a ser criada com a interação desses dispositivos, Arduino, ESP32 e outros, com o mundo, mas parece que as pessoas não percebem. Os criados estão sem criatividade e os fazedores só sabem fazer...

- Precisamos dar uma solução. – Cleto repentinamente percebeu o problema e se manifestou preocupado. O professor continuou.

- Tivemos nas últimas semanas aventuras interessantes que mostram coisas diferentes. Como o uso da imaginação e criatividade pode levar a coisas não imaginadas normalmente. Elas servem mostrar a necessidade de estimularmos no ensino de tecnologia, não apenas o criar e o fazer, mas o imaginar. Usar a imaginação com base no universo que nos cerca.

- O senhor já nos falou da Heurística. – Lembrou Beto.

- Muitos a considerar a ciência do pensamento criador e falta um pouco de seu conhecimento, principalmente nos jovens no sentido de se criar coisas que sejam realmente novas.

- Exercício de imaginação!

- Sim, Cleto. Exatamente isso. É preciso ensinar os jovens a exercitar sua imaginação, criatividade com desafios. É o que faço com meus alunos. – Explicou o Professor Ventura.

A apresentação do desafio pela live na Internet foi um sucesso e despertou, principalmente nos educadores que a assistiram o interesse de ir além no ensino de tecnologia. Associando os temas a outras matérias, com desafios e projetos práticos seria possível recuperar mais uma das habilidades que nós humanos temos e que estamos perdendo.

Depois de perder a coordenação motora fina pela falta de uso das mãos em trabalhos manuais (*), de perder a capacidade de adaptação para ver objetos distantes necessitando de óculos por ficar o tempo todo no computador e no celular, é hora de pensarmos na criatividade.

(*) Uma piada dos tempos antigos dizia que de tanto só usarmos os automóveis, a crianças daqui algumas gerações nasceriam com rodas em lugar de pernas. Hoje poderíamos dizer que daqui a algumas gerações as crianças só nasceriam com polegares para manusear seus celulares...

No dia seguinte, o Professor Ventura, Beto e Cleto foram vistos na sorveteria, desfrutando do resultado de mais esta aposta. Em dado momento o professor parou e começou a observar fixamente uma vaca que despreocupadamente pastava do outro lado da estrada. Cleto percebeu.

- Essa não! Lá vem bomba. Mais uma aposta!

Realmente, mas desta vez o professor os acalmou.

- Essa não. Sim, é possível. Mas deixo esta possibilidade para nossos leitores, assim como outras, como desafio. Desafio para sua criatividade, sua habilidade e sobretudo sua capacidade em usar fatos concretos da ciência para resolver os problemas.

 

 


 

 

Para os que desejam saber mais sobre a possibilidade de se fazer experimentos com as pastilhas Peltier, sugerimos a leitura dos seguintes artigos:

O gelo que dá choque (DID009)

A energia do gelo (FIS005)

Energia do Gelo – Uma Prova de Fogo! (MEC568)

Dispositivo de Efeito Peltier (ART1832)

Prof. Ventura em: Armazenando energia no escuro (NVENT034)

Prof. Ventura em: Armazenando energia num picolé (NVENT030)

 

 

 

 

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